Em nome da Democracia: perceber as razões, agir sobre elas
Uma vendedora de peixe no mercado do Livramento, em Setúbal, votante confessa do Chega, testemunhou para uma reportagem televisiva sobre o eleitorado deste Partido. Disse a peixeira que “tiveram tantos votos, não porque as pessoas sejam de extrema direita mas porque estão descontentes”, para acrescentar, logo de seguida, que a propósito dos resultados obtidos: “isto é um bocado assustador, vamos ver… Uma coisa é serem oposição, outra é serem poder…”
O destaque que faço deste testemunho é porque ele encerra aspetos importantes que têm de estar presentes na análise dos democratas que protagonizam, através dos cargos políticos, a representação dos seus concidadãos e a quem cabe acautelar que não ocorrem descontentamentos acumulados e dos democratas que, pelo voto, escolhem, mas não quem verdadeiramente pretendem que os represente, circunstância que tem o perigo de colocar no poder forças anti democráticas não desejadas.
A explicação para os resultados nacionais é decididamente multifatorial.
Das diversas razões, não é alheia a opção do Presidente da República, relativamente à dissolução de uma maioria absoluta no Parlamento. Não são alheios os baixos rendimentos que permanecem, não obstante a governação socialista ter promovido o aumento do salário mínimo nacional, em mais de 60%, e o médio, em mais de 40%; não são alheias as dificuldades de resposta adequada nos transportes públicos não obstante o passe metropolitano ter sido reduzido a 40€; não é alheia a falta de resposta atempada nos cuidados de saúde, não obstante o orçamento da saúde ter passado, na governação socialista, de 9,8 MM € para 16 MM€; e por aí fora. Registe-se que a AD, que voltou a vencer as eleições, não acrescentou nada. Colocou dinheiro em cima dos problemas sem os solucionar.
Portanto, é notório que há aspetos que funcionaram como detonadores para o descontentamento exacerbado. O tema da imigração é objetivamente outro exemplo, não obstante uma boa parte do que é tomado como justificativo seja afinal o produto de um discurso interesseiro da extrema direita. Estou a dizer que não têm de ser tomar medidas sobre o tema? De todo. Precisamos de imigrantes. Há setores de atividade cujo funcionamento depende deles: construção civil, agricultura, restauração, assistência às necessidades básicas dos mais idosos…. Mas, pôr fim a possíveis mafias de tráfico de seres humanos, terminar com lojas que sejam disfarces de realidades criminosas, inviabilizar a receção de imigrantes por parte de grandes explorações agrícolas sem garantias de acolhimento e integração, inviabilizar que Portugal seja instrumental para entrada na Europa, …. exige medidas.
Mas, até neste tema há contradições surpreendentes. Na reportagem que referi acima foi entrevistado, na Moita, um imigrante indiano aparentemente bem integrado. Concorda com o Ventura sem hesitação mas acaba a queixa-se dele porque é contra a sua comunidade e diz “coisas só de ouvir”. O Ventura “tem de ir ver como somos”, conclui!
Estamos a viver tempos particulares, é necessária toda a disponibilidade para entender e toda a determinação para promover mudanças. Perceber as razões, agir sobre elas.
Fonte: Eurídice Pereira. O Setubalense. 27 de maio de 2025
