“Kristin e a urgência de um país à altura”
Os últimos dias foram particularmente duros para muitas regiões do país. Em grande parte de Portugal, a verdadeira dimensão do que aconteceu com a passagem da tempestade Kristin não foi plenamente compreendida. Apercebi-me disso de forma muito clara quando, na quarta-feira, cheguei a Lisboa: a distância geográfica refletia também uma distância na perceção da catástrofe que realmente se viveu. E, citando o que ouvi ao longo destes dias, para muitos, o que não se passa em Lisboa não acontece.
Vivi a noite do temporal na cidade de Tomar, uma noite que não esquecerei. Desde então, mantenho contacto permanente com os autarcas do distrito de Santarém. Passadas mais de 48 horas, a situação continuava extremamente complexa. Entre as regiões atingidas do nosso país está o distrito de Santarém e, muito em particular, a região do Médio Tejo, onde comunidades inteiras ficaram vários dias sem energia elétrica, comunicações ou água.
Quero expressar a minha solidariedade para com todos os afetados por esta calamidade. Deixo também uma palavra de profundo reconhecimento à Proteção Civil, aos bombeiros, às forças de segurança, às Forças Armadas, aos serviços municipais e às juntas de freguesia, que estiveram incansavelmente no terreno, em condições extremamente exigentes. O seu trabalho, em muitos casos invisível para quem observa à distância, foi determinante para evitar danos maiores.
A madrugada de 27 para 28 de janeiro ficará na memória de muitos de nós. Tinha regressado de viagem, e a noite que esperava ser de descanso, em Tomar, tornou-se numa experiência de enorme tensão e preocupação. Os alertas sobre a depressão Kristin eram claros, mas a violência do fenómeno superou as expectativas e revelou fragilidades estruturais.
Lamento profundamente as vítimas mortais registadas no país. Na nossa região, felizmente, não houve perdas de vidas, mas no concelho de Vila Franca de Xira (distrito de Lisboa), a morte um cidadão paquistanês – um trabalhador que, em plena madrugada, transportava pão – deve ser encarada como um alerta, num tempo marcado pela intolerância e pelo esquecimento de quem sustenta silenciosamente o nosso quotidiano.
Não é o momento para procurar culpados. No entanto, parece-me evidente que o Governo, no imediato, não compreendeu plenamente a dimensão da tragédia. O vídeo do ministro Leitão Amaro, entretanto apagado, não contribuiu para a serenidade necessária e mostrou uma falta de sensibilidade que não corresponde ao que se exige num momento de crise.
O país precisa, mais do que nunca, de respostas robustas e coordenadas. É indispensável que o Estado central assegure um mecanismo forte de apoio financeiro às regiões mais afetadas, de forma a repor serviços essenciais, reforçar a resiliência das infraestruturas e iniciar, com rapidez e justiça, o processo de recuperação.
As populações fizeram a sua parte. Os agentes no terreno corresponderam, como sempre, com coragem e dedicação, pelo menos na maioria dos casos. Falta agora que o país esteja à altura do desafio.
Fonte: Hugo Costa. Mediotejo.net. 30 de janeiro de 2026
