Espelho meu, espelho meu
O país foi assolado por um conjunto de tempestades que são exemplos de uma tendência que veio para ficar. E devemos, quando analisamos a resposta do Governo e dos serviços a quem cabe responder, reconhecer a excecionalidade meteorológica daquele dia. Ventos como aqueles que tivemos na região centro, a rondar os 200 km/h, teriam sempre como consequência danos e destruição. Isto dito, há perguntas que continuam por responder e há cada vez mais dúvidas sobre se o Governo e a Proteção Civil levaram a sério as mensagens de aviso que enviaram aos cidadãos. Se compreenderam que, além do SMS, era preciso explicar quais os impactos possíveis de tais ventos e para o que era suposto prepararmo-nos. E se se prepararam para responder.
Durante demasiadas horas o país assistiu à solidão de autarcas perante os problemas, a pedidos de socorro e de coordenação, ao implorar de reforço de meios nos seus territórios. Durante demasiados dias falhou uma voz de comando, que se articulasse com todos e que procurasse dar as garantias e as alternativas possíveis aos muitos que ainda hoje, mais de uma semana depois, estão sem telhado, sem energia elétrica e sem comunicações.
Quando o ministro que ocupa as funções de porta-voz do Conselho de Ministros decide gravar um vídeo de autopromoção para que passe a ideia do seu contributo insubstituível revela que não é o resultado o que mais lhe importa. Não são as pessoas socorridas, nem as empresas reabertas, nem as infraestruturas recuperadas, nem as necessidades garantidas — mas criar a perceção de que estava lá, que foi ele, e que quer que seja essa a imagem que fique. É o retrato que o move e essa é a derradeira demonstração de que está convencido que a realidade da dor, do vazio, da precariedade em que a população se encontra não atrapalhará o seu grande-plano. Em alguns espelhos retrovisores aparece o aviso “os objetos no espelho podem estar mais perto do que aparentam” — e esse alerta tinha sido útil a Leitão Amaro no seu momento de vaidade. A realidade impõe-se, mais cedo que tarde, e perante ela de nada vale a miragem da videografia.
A incapacidade que a maioria dos ministros demonstrou em falar diretamente para as pessoas, em responder às suas preocupações e angústias com Humanidade e determinação, não surge por acaso. É a consequência de ninguém ter assumido, desde a primeira hora, que tem a seu cargo não apenas a definição de políticas, mas também a gestão de toda a Administração e o dever de tomar as medidas necessárias para resolver a crise resultante desta catástrofe. É isso que revela a fatal frase do PM quando referiu “aqueles que não evitaram a trágica consequência de perder a vida”, como se não nos coubesse a todos, enquanto país, e a ele, enquanto chefe do Governo, essa missão de proteger a vida dos cidadãos perante a intempérie.
As falhas na resposta do Governo em momentos de crise não são novas: aconteceram na reação aos incêndios, quando o país ardia e se atrasou o pedido de ajuda ao mecanismo europeu de proteção civil enquanto todo o PSD se juntava em festa no Algarve; aconteceram na resposta ao apagão, com incapacidade de coordenação, falta de comunicação entre os serviços e nas ideias anedóticas que foram descritas. O Governo tem procurado agitar o medo e criar perceções. Mas o poder dessa estratégia é limitado e finito. Quem se habitua a governar para a perceção acaba por se desligar da realidade, e um Governo desligado da realidade não a consegue compreender nem enfrentar.
Fonte: Mariana Vieira da Silva. Expresso. 5 de fevereiro 2026
