Isto não é só combustíveis
A guerra no Médio Oriente é um erro que nos vai custar caro por muito tempo. Não só em termos de segurança, mas no bolso dos portugueses. Se Trump achava que o Irão era a Venezuela, enganou-se redondamente. Não deve ter ajudado mobilizar visível e antecipadamente forças para a região, perdendo qualquer efeito surpresa. Não nos acalma o espírito que o ataque seja feito em violação grosseira do direito internacional, sem sequer se tentar enquadrar nele, ou que se tenha atacado uma escola, matando quase duas centenas de civis, sobretudo crianças do sexo feminino. Portugal não está fora desta equação. O Governo apressou-se a alinhar politicamente com a ação americana, mas hesita agora nas consequências económicas dessa mesma posição. Não adianta agora dizer que não ajuda com forças ou que está solidário com Espanha. Desde pelo menos a intervenção na Venezuela que sabíamos que Montenegro em nada contribui para o primado da lei sobre o poder dos mais fortes.
O pior são as consequências irrefletidas desta guerra, e que não excluem Portugal e os portugueses. Os combustíveis estão já 30 cêntimos mais caros, iniciando um efeito cascata em todos os preços de bens e serviços transportados. Isto não para aí. Há processos industriais que dependem de gás natural. Há a disrupção à oferta de bens intermédios, como o nitrogénio, usado em fertilizantes, ou o hélio, gás com diversas aplicações médicas. Tudo isto está já a aumentar as taxas de juro, acrescentando ainda mais pressão ao custo de vida sentido pelas famílias.
A reação do Governo joga pelos mínimos. Até agora, baixou duas vezes o Imposto sobre os Produtos Petrolíferos, num total de 5 cêntimos no gasóleo e 2,5 cêntimos na gasolina. O que quase nunca se vê divulgado é que o Governo já havia, a 27 de dezembro de 2024 e 28 de novembro de 2025, aumentado por outras duas vezes o ISP. Na prática, o Governo está a devolver aquilo que já havia cobrado a mais, em mais um clássico truque de “dar com uma mão e tirar com a outra”. E ainda não devolveu tudo – à data de hoje, mais de 40% do aumento da carga fiscal sobre a gasolina e 16% da sobre o gasóleo ainda não foi devolvido, justamente numa altura em que os preços estão como estão na bomba.
O Governo, aliás, tem dito que vai esperar antes de tomar mais medidas, deixando mais medidas para um período posterior. É uma estratégia possível de gestão política, quando previsivelmente passaremos meses com constante pressão pública para aprovar mais medidas. Parte, no entanto, de dois erros de análise – o primeiro, de que essa pressão será gerível mais tarde se se perder agora a perceção de que a AD quer saber e tem respostas credíveis.
O segundo erro do Governo aprende-se nas aulas de macroeconomia. A rigidez na definição de preços obriga os produtores a antecipar nos seus preços todos os possíveis aumentos futuros dos seus custos. Mesmo que os seus custos voltem a descer mais à frente, as empresas incorporarão já quaisquer aumentos de custos temporários no futuro mais imediato. A conclusão é simples: quanto mais cedo um Governo agir para travar uma escalada inflacionista, melhor.
A questão que mais dividirá os economistas é outra. É, antes, o como. Afinal, uma visão clássica apontaria para a necessidade de aumentar os juros e apertar o cinto, ao Estado, empresas e famílias, para absorver excessos de procura e repor o equilíbrio ao mercado. Os suspeitos do costume apontarão neste sentido que tão bom resultado nos trouxe em 2008 ou 2011. Outros, ainda, voltarão a ganhar a vida em longos debates sobre apoios condicionais, direcionados e temporários que amparem o choque. Essas medidas são necessárias e provavelmente outras, mais de carácter universal, como o IVA Zero, cuja anterior aplicação foi um sucesso objetivo. Não nos podemos esquecer da classe média no meio desta situação.
Esta crise não é, porém, uma perturbação na procura, a segurar como está à custa do erário público – isto é, de todos nós. É uma perturbação na oferta e que exige medidas do lado da oferta. Depois de ter sido desenvolvida, nos anos 70, como alternativa à visão keynesiana, a economia pelo lado da oferta (“supply-side economics”) conheceu um novo paradigma progressista depois da crise inflacionista pós-Covid. Aplicado à atual situação, trata-se, por exemplo, de incentivar famílias e empresas a eletrificarem consumos outrora satisfeitos pelo gás fóssil.
Não tenhamos ilusões: a crise que aí vem será dura, como foi a de 2022. Exigirá proatividade, agilidade e criatividade. Exigirá responsabilidade, humildade e sensibilidade social. Exigi-lo-á de todos nós, independentemente da cor partidária, e exigi-lo-á através de várias frentes e vários instrumentos. Infelizmente, para quem tem um martelo, todos os problemas parecem pregos. Para quem tem palas nos olhos, só se vê mesmo o que está à frente do nosso nariz. Se continuarmos assim, mais uma vez, agiremos tarde demais.
