A urgência não se mede em dias
Há crises que não começam quando os indicadores económicos se alteram de forma visível. Começam quando encher o depósito custa mais do que na semana anterior, quando a conta do supermercado sobe sem explicação aparente e quando uma perturbação internacional se transforma rapidamente numa pressão concreta sobre a vida quotidiana.
É também aí que se mede a capacidade de um Governo: na rapidez com que percebe o alcance do problema e na forma como decide agir antes de os efeitos se acumularem.
O atual contexto internacional voltou a introduzir fatores de instabilidade com impacto direto nos preços da energia e em bens essenciais. Num país onde uma parte relevante dos rendimentos permanece particularmente vulnerável a qualquer agravamento do custo de vida, isso exige atenção política reforçada, leitura fina da conjuntura e capacidade de resposta em tempo útil.
Por isso, surpreende que perante sinais tão evidentes se tenha assistido, primeiro, a prudência excessiva, depois, a hesitação e, por fim, a um debate quase centrado em cronómetros políticos: quantos dias demorou no passado, quantos dias passaram agora – como se crises diferentes pudessem ser tratadas por simples comparação administrativa.
A realidade económica, no entanto, não respeita esses calendários. Quando os combustíveis sobem em poucas semanas aquilo que, noutro ciclo, levou muitos meses a acontecer, a intensidade do impacto altera-se de forma imediata. E isso repercute-se em toda a economia: na produção, no transporte, na distribuição e, inevitavelmente, no preço final suportado pelas famílias.
Nestas circunstâncias, limitar a resposta à neutralidade fiscal é insuficiente. Há momentos em que neutralidade não significa proteção; significa apenas não contrariar de forma bastante um agravamento já em curso.
Na Assembleia da República, foi recentemente apresentado um conjunto alargado de propostas destinadas precisamente a responder a esta pressão, incluindo medidas como a redução do IVA dos combustíveis e a aplicação de IVA zero a um cabaz de bens alimentares essenciais. Tratava-se de instrumentos com aplicação já testada e vocacionados para produzir alívio imediato. Ainda assim, esse conjunto de iniciativas foi recusado pela direita parlamentar.
No atual quadro económico, torna-se decisivo acompanhar com atenção toda a cadeia de valor agroalimentar, apoiando os diferentes agentes económicos que hoje enfrentam uma pressão acrescida sobre custos operacionais, porque só assim se evita que esse agravamento se repercuta integralmente no consumidor final.
Também no plano europeu importa não esquecer o que os últimos anos demonstraram: choques externos exigem instrumentos comuns, capacidade coordenada e mecanismos permanentes – ainda inexistentes – que reforcem a margem de intervenção dos Estados.
Há, além disso, uma consequência que não pode ser subestimada. Se esta instabilidade internacional acelerar pressões inflacionistas, as taxas de juro poderão ser afetadas. E isso significa prestações mais pesadas para milhares de famílias com crédito à habitação, num momento em que muitas continuam a gerir com dificuldade o esforço acumulado dos últimos anos.
Governar em tempos de crise não é esperar que todos os seus efeitos estejam plenamente refletidos nos indicadores. É perceber cedo que eles já começaram e agir antes que se tornem mais difíceis de corrigir. Porque, em política económica, muitas vezes a diferença entre proteger e falhar mede-se apenas no tempo da decisão.
