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E assim se partiu o vaso

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Publicado por Cláudia Veloso em 19 de Maio 2026
Categorias
  • Data19 de Maio 2026
Terça-feira, 19 Maio, 2026

E assim se partiu o vaso

Autor: Miguel Costa Matos
Meio: Sábado

Está em curso a batalha que irá eleger, dentro do Partido Trabalhista, um novo Primeiro-Ministro para o Reino Unido. Há pouco mais de uma semana, Keir Starmer sofreu um desaire sem precedentes, caindo para 17% do voto popular nas eleições autárquicas inglesas e perdendo quase 1500 mandatos. No País de Gales, bastião do Labour desde 1922, tiveram apenas 11% dos votos e ficaram reduzidos a 9 deputados regionais em 96. A menor quebra foi na Escócia, onde o voto trabalhista já tinha sido devorado pelo independentismo escocês e, mesmo assim, onde perderam 5 dos 22 mandatos de que dispunham.

Este fracasso contrasta com a maioria esmagadora que o Labour havia conquistado nas eleições legislativas de 2024. Depois de 14 anos de governo conservador, com 5 diferentes primeiros-ministros, o Brexit e péssimos indicadores económicos, as pessoas quiseram mudança, pensou-se. E pensou-se bem, apenas não se pode dizer que tenham querido a mudança protagonizada pelo Labour. Keir Starmer conquistou apenas 34% dos votos, a percentagem mais baixa alguma vez obtida por um partido de governo no Reino Unido e não muito mais que o pior resultado de Corbyn em 2019 (32%).

Como em Portugal e muitos outros países, a política britânica fragmentou-se. No caso, não só se regista a ascensão da extrema-direita e o crescimento dos partidos nacionalistas no País de Gales, Escócia e Irlanda do Norte, como mais recentemente, o surgimento dos Verdes, pela esquerda do Labour. Isto desafia um sistema eleitoral com círculos uninominais, que favorece fortemente o bipartidarismo e o voto útil. Ao contrário das nossas eleições presidenciais e de França, onde até as eleições legislativas têm uma segunda volta, no Reino Unido, quem tiver mais votos à primeira, ganha. Foi neste contexto que Starmer e a sua equipa adotaram a estratégia do “vaso da dinastia Ming” – prometer pouco e falar mais do adversário do que do nosso próprio programa, para não assustar eleitores moderados. Dito de outra forma, cuidado extremo senão o vaso vai partir. No caso, o Labour tinha uma tática adicional – interessa mais ganhar por pouco nos círculos eleitorais em objetivo, do que procurar uma grande mobilização nacional. Em 2017, Corbyn tinha obtido 40% do voto popular mas Theresa May vencera na mesma as eleições.

Funcionou. Mas foi sol de pouca dura. Enquanto a Terceira Via, como programa sistemático de afirmação de uma social-democracia mais liberal e tecnocrática, sobreviveu essencialmente até à crise de 2008, a amálgama moderada que levou Starmer até Downing Street durou menos de dois anos. É certo que a conjuntura era diferente. A estrutura também – o Labour nunca recuperou plenamente a confiança da classe média-baixa e foi perdendo paulatinamente a fidelidade das minorias étnicas.

Mas o problema de uma estratégia assente em pouco mais do que criticar o adversário é que quando o pouco não funciona e o adversário perde o seu lustre temível, nada sobra. Os conservadores nunca recuperaram de 2024 e, com as suas fileiras engrossadas por antigos ministros Tory, Farage prossegue o rumo de normalização que se vê em toda a Europa e que Vicente Valentim tão bem descreve no seu livro. Já o programa do Labour soube a pouco. Só agora estão a entrar em vigor a sua Agenda do Trabalho Digno e a lei dos direitos dos arrendatários. A simplificação da construção ficou pelo caminho e a impopular reforma dos apoios ao aquecimento doméstico (Winter Fuel Payments) teve de ser revertida.

Os maiores fracassos dos trabalhistas estão, todavia, nas finanças púbicas e na política de imigração. Nesta última, cederam ao impulso de procurar os eleitores da extrema-direita onde esta se encontra, sem perceber que iam, assim, validar e amplificar a xenofobia que sustenta o Reform, sem com isso a conseguirem saciar nem conseguindo assim credibilizar-se. O original é sempre preferível à cópia.

Já nas finanças públicas, a promessa de que não iriam aumentar os impostos foi, tal como em Portugal, violada. Com um sentimento de culpa tipicamente inglês, essa necessidade foi convertida num drama diário, partido aos mil pedaços, inundando de pessimismo e de frustração o debate político. Maquiavel bem dizia para fazer o bem muitas vezes mas o mal de uma assentada só. Entretanto, enquanto Westminster discutia prudência fiscal, muitas famílias continuavam sem sentir melhoria no custo de vida.

Starmer podia ter dado a volta a todos estes problemas, erros e indefinições. Blair continuou a ganhar apesar do erro clamoroso da Guerra do Iraque. Os conservadores superaram o caos do Brexit e Trump recuperou após 2020. O atual primeiro-ministro inglês bem tentou, ziguezagueando entre posturas humildes e fortes. Só que não há boa mensagem que resista a um mau produto. Vivemos numa era dos homens fortes, como já aqui escrevi e como escreveu Bernardo Pires de Lima antes de mim. A Starmer faltou ambição e coerência. Faltou a eloquência de quem fala sem medo. Faltou pousar o vaso da dinastia Ming e meter mãos à obra. Isso é muito mais vasto do que a sova que os progressistas levam diariamente nas redes sociais. Como se viu com Zohran Mamdani, o bom marketing pode dar fama e sucesso de um dia para o outro. O que define o sucesso de uma liderança é o seu carácter – ou a falta dele.

Quando uma liderança vive apenas para evitar riscos, acaba inevitavelmente sem força para criar esperança. E sem esperança, nenhum vaso resiste intacto durante muito tempo.

Fonte: Miguel Costa Matos. Sábado. 19 de maio de 2026

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