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Será uma recessão inevitável?

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Publicado por Cláudia Veloso em 11 de Junho 2026
Categorias
  • Data11 de Junho 2026
Quinta-feira, 11 Junho, 2026

Será uma recessão inevitável?

Autor: Miguel Costa Matos
Meio: Sábado

A pergunta já não é se a economia portuguesa vai abrandar. Uma economia dependente do turismo, como a nossa, numa crise de combustíveis, está em apuros. Apesar de não se antever para já falhas no abastecimento de jet fuel, em maio, o preço da energia na Europa já tinha subido 10,9%. A inflação não se ficará pelos combustíveis, porém, como escrevi logo a 17 de março. A combinação do bloqueio em Hormuz com o impacto de um fenómeno climático El Niño sem precedentes vai, com elevado grau de probabilidade, criar uma crise alimentar um pouco por todo o mundo.

Sabemos o que isso significa. O dinheiro vai faltar no bolso de milhões de pessoas e empresas. Ao contrário do que prevê a teoria económica, as pessoas não vão antecipar as suas decisões de consumo e investimento. Apesar de estarmos em situação de pleno emprego e de grande escassez de oferta, não haverá capacidade de rever salários e contratos para compensar plenamente os efeitos da inflação. Teremos, por isso, uma segunda dose do que nós, economistas, chamamos “estagflação” – a conjugação de estagnação com inflação.

O cenário hoje é, todavia, diferente do de 2022. Por um lado, o choque energético é menor, mas é mais distribuído pelo globo, mitigando a procura externa. Por outro lado, o mundo não está a viver o boom pós-pandemia e os correspondentes ajustes nas cadeias de abastecimento. Na verdade, a União Europeia cresceu apenas 0,1% no 1.º trimestre deste ano, com Portugal a registar uma variação nula em cadeia. O crescimento salarial registou também uma forte desaceleração nos meses anteriores à ofensiva americano-israelita, tanto na Europa, como em Portugal. A estagnação não é apenas consequência da inflação – ela já cá estava e aconteceu coincidirem no tempo.

No caso de Portugal, o cenário é um pouco mais alarmante. Os primeiros sinais eram preocupantes, como aqui tive oportunidade de esmiuçar. Entretanto, confirmou-se que Portugal perde quota de mercado nas suas exportações, após uma década a registar ganhos – uma tendência que está para durar, segundo o que Bruxelas antecipa. A medíocre situação económica do país contrasta com a nossa vizinha Espanha, mesmo com tão infame governo socialista e sem orçamentos. Com várias obras a transitarem do PRR para financiamento nacional, a recuperação das tempestades por fazer e, ainda, a crise inflacionista, é lamentável que Miranda Sarmento tenha esbanjado o excedente que herdou em nada que se veja. Se for para cumprir as regras, logo na altura em que era preciso gastar, será tempo de apertar o cinto.

Quem o vai sentir? Em primeiro lugar, as famílias e as empresas. Aliás, já o estão a sentir. Nos últimos 6 meses, a confiança dos consumidores caiu uns impressionantes 10 pontos. A verdade é que, nos últimos anos, temos assistido a um “comprar de tempo” para a economia portuguesa, com um crescimento galopante do endividamento do setor privado não-financeiro. Mas este tapa-buracos está a acabar. As taxas de juro estão já a subir. Os bancos em toda a Europa estão já a apertar as condições de crédito. E o BCE ainda não decidiu nada.

Tudo aponta para que o faça na sua próxima reunião. O Governador do Banco de Portugal já declarou a sua posição de “falcão”, querendo subir as taxas de juro “mais cedo do que mais tarde”. É uma irresponsabilidade perante um país cujo crédito está altamente exposto. É, sobretudo, um contrassenso dada a natureza temporária dos choques, a sua insensibilidade à variação das taxas de juro e o não haver sinais credíveis de que as expetativas de médio-prazo de inflação “desancoraram”. Assim sendo, uma política monetária restritiva não é só desnecessária como também ineficaz. Sem ganho real, é apenas um castigo para todos nós enfrentarmos. Já está tudo mais caro e estes políticos-feitos-magos da economia monetária decidiram tornar a prestação da casa, do carro, da empresa mais cara ainda. Da parte do PS, já chamámos Álvaro Santos Pereira ao Parlamento para prestar explicações.

A gestão destas crises coloca, pois, em perspetiva um risco crescente de recessão. Se em 2022, onde havia alguma pressão do lado da procura, esta já era a resposta errada, agora ainda mais o é. Mas há sempre alternativas – está longe de ser inevitável que a economia ceda. É preciso mitigar os impactos da crise, não apenas entre os mais pobres e vulneráveis, e é preciso apoiar a transformação industrial que permita conter os preços através da recuperação, por outras vias, da oferta e, não, através da contenção da procura. A inflação combate-se produzindo mais, transportando melhor e dependendo menos.

Havia uma altura em que a economia do lado da oferta (“supply-side economics”) era um fetiche de direita. Hoje, é um adorno retórico no discurso de tantos, com palavras caras como “autonomia estratégica”, mas sem reais decisões nem recursos para as concretizar. Havia uma altura em que o apoio ao custo de vida era sempre pouco. Hoje, o apoio é menor, mas isso é um facto para quem está na oposição.

Contudo, por detrás das folhas de Excel e dos argumentos políticos, estão pessoas e as suas vidas. Estão empresas e os seus projetos de crescimento. Está a casa, a mobilidade, a comida e a energia toda mais cara, toda de uma só vez. Está um sufoco sobre o qual não temos qualquer culpa, sobre o qual não podemos fazer nada, mas cuja fatura vamos ter de pagar. E são sempre os mesmos a pagar. Tal como haverá sempre alguns que se safam. Se nada fizermos, a recessão parecerá inevitável, mas terá sido, sobretudo, escolhida. E com consequências para o nosso contrato social que nenhum de nós quer imaginar.

Fonte: Miguel Costa Matos. Sábado. 10 de junho de 2026

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