A classe média tem de ser respeitada
Nos últimos dias, o Boletim Económico do Banco de Portugal alertou para a crescente proximidade do salário mínimo e do salário mediano. São pouco mais de 100 euros a separá-los, levantando alertas e preocupações sobre a compressão salarial e o seu impacto na produtividade.
A resposta mais simplista a este problema é culpar o aumento do salário mínimo e considerar que essa decisão de aumentar o salário mínimo foi um erro político.
Nada poderia estar mais errado. É, aliás, o próprio Banco de Portugal a sublinhar que a valorização do salário mínimo contribuiu para a redução das desigualdades salariais. Sendo a única remuneração cuja atualização pode ser determinada pelo Governo e aplicada de forma universal, esta medida foi e continua a ser essencial.
Outra questão, bem diferente, é a falta de valorização da classe média e da maioria dos trabalhadores, que veem os seus salários a crescer a um ritmo insuficiente (apesar dos tímidos aumentos) para acompanhar o custo de vida. Enquanto enfrentam dificuldades crescentes no acesso à habitação, assistem também ao aumento contínuo dos preços de bens essenciais para o seu dia a dia.
Precisamos, por isso, de promover uma verdadeira justiça salarial para estes trabalhadores. Precisamos de aumentar os salários medianos e de criar condições para que o trabalho qualificado seja devidamente reconhecido e recompensado.
Isso exige incentivos às empresas, direcionados especificamente para a inovação, a produtividade e a valorização dos trabalhadores. Exige investimento apoiado por instrumentos como o Banco de Fomento. Exige um mercado laboral que combata a precariedade e que não a promova, como agora parece estar em cima da mesa, mas antes que seja capaz de conciliar a estabilidade dos trabalhadores com a inovação e a flexibilidade necessárias às empresas.
A valorização da classe média não se alcança com medidas avulsas nem com debates políticos estéreis. Faz-se com o envolvimento do setor produtivo, dos trabalhadores e dos decisores políticos. Acima de tudo, faz-se com a convicção de valorizar quem trabalha é uma questão de justiça salarial, laboral e social.
