378 dias sem uma entrevista
Há 378 dias que Luís Montenegro não dá uma entrevista.
A última foi a 21 de julho de 2025, na Antena 1. Desde então, o primeiro-ministro não se voltou a sentar diante de um editor de política, de um director de informação ou de um jornalista com tempo para perguntar, ouvir e insistir.
Entretanto, houve eleições autárquicas e eleições presidenciais. O candidato apoiado pelo PSD e pelo CDS ficou em quinto lugar, com 11,3% dos votos. Portugal elegeu um novo Presidente da República e a extrema-direita chegou pela primeira vez à segunda volta de umas presidenciais.
No mundo, a guerra da Rússia contra a Ucrânia continuou. O genocídio em Gaza prosseguiu. Começou uma guerra no Irão, que voltou a incendiar o Médio Oriente e a ameaçar a segurança e a economia europeias.
Em Portugal, os preços das casas subiram 17,8%, o maior aumento da União Europeia. A correção digital dos exames nacionais produziu a maior disrupção no acesso ao ensino superior em 30 anos. A lei da nacionalidade foi sucessivamente devolvida pelo Tribunal Constitucional. A reforma laboral do Governo foi chumbada no Parlamento.
A tempestade Kristin provocou uma das maiores catástrofes naturais deste século em Portugal. A ministra responsável pela resposta demitiu-se e admitiu que não tinha conhecimentos técnicos para enfrentar uma calamidade daquela dimensão. Seis meses mais tarde, milhares de pedidos de apoio continuavam por avaliar e muitas obras ainda nem tinham começado.
Aconteceu tudo isto. Luís Montenegro não deu uma entrevista.
Não esteve em silêncio, porém. Fez discursos, anunciou medidas, gravou vídeos, participou em eventos e respondeu pontualmente a jornalistas, em rodas de imprensa espontâneas. Esteve presente sempre que pôde escolher o palco e o tempo.
O que evitou, constante e deliberadamente, foi o formato que não controla.
No debate do Estado da Nação, esgotou os seus 40 minutos na primeira ronda. Na segunda, ouviu 17 perguntas sobre saúde, habitação, exames e legislação laboral sem responder a nenhuma. O PSD ainda dispunha de 30 minutos e decidiu não lhe ceder tempo.
É o retrato perfeito da coragem política do nosso primeiro-ministro. Disponível para anunciar as tentativas, indisponível para responder pelos erros.
A mediação jornalística é parte da prestação de contas democrática. Serve para confrontar promessas com resultados, respostas com factos e governantes com as perguntas que preferiam não ouvir.
Nenhuma lei obriga um primeiro-ministro a conceder entrevistas. Mas não é digno de uma democracia europeia civilizada e avançada que o chefe do Governo passe mais de um ano a evitá-las.
Luís Montenegro fala muito.
Há 378 dias que só aceita fazê-lo nas suas próprias condições.
