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Publicado por Cláudia Veloso em 12 de Agosto 2026
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  • Data12 de Agosto 2026
Quarta-feira, 12 Agosto, 2026

A coragem de descansar

Autor: Miguel Costa Matos
Meio: Sábado

Até parece um desperdício ocuparmo-nos com as férias do Primeiro-Ministro quando tantos Ministros se encontram ensarilhados por verdadeiros escândalos e, mais importante, quando estão à vista as dificuldades na economia, no custo de vida e nas contas públicas, quando o SNS reduz o número de cirurgias que realiza e a escola pública é sujeita ao fiasco dos exames.

Montenegro, de facto, disse que tiraria alguns dias e fins-de-semana. Certamente que algum jornalista se dedicará a saber se são muitos ou poucos. Pouco interessa. O que o Primeiro-Ministro quis verdadeiramente assinalar foi que, com honrosas exceções, não tiraria férias para estar a trabalhar. O problema nunca foi o Primeiro-Ministro descansar. Foi ter sentido necessidade de anunciar ao país que não o faria, como se trabalhar sem parar fosse certificado de empenho e tirar férias uma pequena deserção do dever.

Muitos ou poucos dias, o Primeiro-Ministro tira férias e ainda bem. Está a precisar. Precisamos todos. A nossa vida não pode ser só trabalhar, com a nossa família, amigos e interesses a ficarem com as sobras do nosso ânimo depois de um longo dia. Temos, como escreveu Lafargue, o direito à preguiça. Se valorizarmos ser uma sociedade completa, com todos esses laços de comunidade e significado, diria mesmo que temos nela um certo dever.

Mas, para os mais obstinados, há boas razões para pensar que até trabalhamos melhor depois de parar. As férias reduzem a exaustão, ajudam-nos a recuperar a capacidade de concentração e parecem aumentar a flexibilidade cognitiva – a capacidade de olhar para um problema por ângulos diferentes.

Isto é especialmente importante em Portugal, que se apresenta como o país europeu com maior risco de burnout. Segundo um estudo de 2023 da Ordem dos Psicólogos, o absentismo custou à economia nacional 1,8 mil milhões de euros, enquanto o presentismo custou 3,5 mil milhões, custos que aumentaram 60% nos últimos dois anos.

Infelizmente, não é só a trabalhar que temos quem apenas “marque presença”. Também nas férias, é demasiado fácil, com o auxílio das novas tecnologias, mantermo-nos conectados. Mesmo quem consegue escapar ao e-mail ou à mensagem WhatsApp (e admito desde já que eu não consigo), acaba por trabalhar na imagem que passa das suas férias para as redes sociais.

Não é exagero chamar a essa partilha trabalho. É certo que nos dá, a alguns, algum gozo narrar para os outros e para nós mesmos os frutos em lazer de um ano de labor. Mas não há dúvidas que as mil e uma decisões, mais ou menos conscientes, sobre o que publicar, quando e de que jeito fazem de cada um uma espécie de assistente estagiário de auto-promoção.

Há quem o faça para beneficiar o seu estatuto profissional. Noutros casos, pelo estatuto social. Mas ainda que seja só mesmo para nossa satisfação, a sociedade deu-nos, através das redes sociais, uma nova linguagem e contexto de significado que até de férias dá trabalho. É uma montra consumista que não só exige cada vez mais dinheiro como também uma ansiosa otimização entre destinos, hotéis, restaurantes e outras experiências – até livros! – para os quais há novos influenciadores, rankings e um sem-fim de outras fontes de informação.

Toda esta desigualdade, conjugada com a inflação, está a tornar as férias inacessíveis para muitos. Segundo o Inquérito sobre as Condições de Vida, em 2025, o item de privação material mais declarado pelos portugueses foi a incapacidade de pagar uma semana de férias fora de casa, chegando a 33,1% das pessoas. É certo que esse valor se tem reduzido, tendo sido de 41,3% em 2018, mas devemos pensar bem sobre o facto de um em cada três dos nossos concidadãos estar privado daquilo que deveria ser um direito.

O direito às férias foi difícil de conquistar. Primeiro, a luta concentrou-se na jornada de trabalho – causa pela qual se deu a revolta de Haymarket e pela qual celebramos o 1.º de maio. Essa só chegou a Portugal em 1919 e, mesmo assim, só para alguns. Os trabalhadores agrícolas haveriam de esperar até 1962 para conquistar o teto de oito horas de trabalho por dia. No Brasil, só agora avançam as 40 horas semanais, com o fim da jornada 6×1 (seis dias de trabalho, um de descanso) a ser uma das principais propostas de Lula da Silva para as eleições presidenciais do próximo dia 4 de outubro.

Quanto a férias remuneradas, a seguir à Primeira Guerra Mundial, vários países começaram a adotá-las. Primeiro por contratação coletiva e depois por lei. Em 1926, a OIT estimava que 40% dos trabalhadores europeus já beneficiassem deste direito. Em Portugal, não havia registo nem sequer de uma convenção coletiva. Foi preciso esperar. Primeiro, até 1937, com severas limitações e, depois, pelo 25 de Abril, que, logo em 1975, generalizou as férias pagas e criou o subsídio de férias. Há cinquenta anos, o I Governo Constitucional de Mário Soares consolidou essa conquista, elevando para 21 dias consecutivos o mínimo de férias. E deixou escrito na lei para que serviam: para a “recuperação física e psíquica”, mas também para assegurar tempo para a vida familiar e para a participação social e cultural.

Mas isso não chega quando tudo está tão caro. Hoje, o custo de vida e o culto do trabalho ameaçam o nosso direito a férias – ameaçam até a possibilidade de estar verdadeiramente de férias quando estamos de férias. Precisamos de ter coragem de pensar também sobre isto, não como uma frivolidade mas como parte do que nos faz humanos. Porque coragem não é anunciar que não se tira férias. É reconhecer que ninguém deve precisar de pedir desculpa por as tirar – nem sequer um Primeiro-Ministro.

Fonte: Miguel Costa Matos. Sábado. 11 de agosto de 2026

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