O outro país de Montenegro e Ventura
Há algo que une Montenegro e Ventura. Os dois – que jamais compararemos politicamente – são, por razões diferentes, habitantes de um país alternativo. Pela nossa parte, pelo PS, garanto-vos que não sairemos de Portugal. É mesmo a vida das portuguesas e dos portugueses que nos preocupa. Não fugiremos às nossas responsabilidades: o país precisa de uma oposição que seja alternativa; não faremos oposição ao país e às suas instituições; e não caucionamos as opções políticas do Governo, que têm vindo a revelar-se um verdadeiro falhanço.
Acreditamos nos portugueses; compreenderão seguramente que ante a gritaria e a ineficácia das políticas só uma alternativa, uma via, permanece válida: a força da mudança responsável de quem pode tornar Portugal um país melhor. De quem fala do futuro sem enganos; de quem faz política para resolver problemas. Uma ambição conhecedora; com os pés bem assentes na terra.
A moção de censura que discutimos é, em si mesmo, o espelho de um Governo bloqueado, de um Primeiro-Ministro ausente, de um MAI sem limites, mas ao mesmo tempo de uma extrema-direita errante, espalhafatosa, que ora anuncia uma CPI, como a seguir moções de censura, para logo a seguir voltar à CPI. Seria cómico, se não fosse trágico, que apresente uma moção de censura, para logo no segundo parágrafo do texto que submete afirmar que não quer criar uma “crise política”. Para incoerência bastaria isto. Mas é pior, assinala os pecados do MAI, que quer fora do Governo, não se importando em levar pela frente, sem rebuço, a própria PJ. Numa fúria que só o íntimo do deputado Ventura pode explicar.
Sabemos que não irá fazê-lo; mas tememos conhecer a razão. Ler o livro “Por Dentro do Chega”, de Miguel Carvalho, ajuda a perceber. Recomendo a leitura.
Enquanto isto, o Governo apresenta uma degradação progressiva, quer nas suas políticas, quer desde o ponto de vista institucional. Neste último aspeto, uma evidente ausência de liderança; um Primeiro-Ministro que se ‘apaga’ nos momentos difíceis, que não controla os seus ministros – a intervenção do MAI na Madeira é disso exemplo – e que revela, de forma quase desconcertante, um desconforto crescente com a comunicação social. Ora se queixa de ‘censura’ moderna – da liberdade editorial (?) –, ora leva só a Lusa e a RTP para alguns eventos, o que, já agora, seria um autêntico escândalo noutros tempos não muito longínquos.
Um autêntico estudo de caso da aplicação em concreto do conceito de ‘Asfixia Democrática’.
Enquanto isso, os boys instalam-se na Segurança Social, no IEFP, nas administrações hospitalares, de forma sôfrega, sem qualificações, sem experiência, algo nunca visto. Um bar aberto ‘laranja’ à custa da qualidade de gestão das instituições.
Nas políticas públicas um logro: na Saúde do falhanço do Plano de Emergência à ‘normalização’ dos partos no meio da rua; na Educação um caso de negligência e incompetência, dos exames ao número de alunos sem aulas; no PRR a não concretização de marcos e metas, com IPSS e Municípios com obras por acabar; na Justiça a paralisia; nas Infraestruturas e Habitação, os recordes sucessivos de aumento do preço das casas e dos arrendamentos; e, na Defesa, a opacidade marca da casa CDS, com aquisições sem explicar e preços que carecem de (muito) mais detalhe.
Para não falar da derrota de uma Reforma Laboral que os portugueses rejeitaram, ou de uma Reforma da Segurança Social que não aconteceu, nem acontecerá, porque foi derrotada pela pobreza dos argumentos e o viés ideológico do ponto de partida. No custo de vida, que aperta – no cabaz alimentar e nos combustíveis -, uma falta de iniciativa e empatia. A gasolina e o gasóleo sobem à mesma velocidade que o Governo degrada a sua imagem junto dos portugueses.
Ventura insiste em desviar a política portuguesa do centro das preocupações dos portugueses. Não é alternativa, apenas quer ganhar com a degradação da imagem das instituições democráticas. A única forma de ter poder (e dinheiro). Montenegro prefere esse tema; sempre dá para não discutir o que verdadeiramente importa.
Não contem com o PS para essa alienação da vida política, que se afasta dos portugueses e dos seus problemas. Confiamos na sua inteligência. A alternativa não se constrói contra a democracia, e menos ainda ‘fugindo’ dos problemas concretos de cada português. A serenidade e a confiança, uma proximidade, que é a base da alternativa a este Governo. Estar com os portugueses – na sua vida – e não no outro país para onde Montenegro e Ventura emigraram este Verão.
A política portuguesa não é um conjunto de vazio de alternativas, mas cada vez mais só sobra o PS. Há cada vez mais portugueses a percebê-lo. Talvez seja mesmo a única coisa que se aproveita desta moção de censura.
Fonte: Eurico Brilhante Dias. Expresso. 7 de setembro de 2026
