Para cada crise, uma resposta
Nos últimos quase 20 anos os portugueses suportaram muitas crises: a crise financeira, a das dívidas soberanas, a do programa de ajustamento, a da pandemia, a invasão da Ucrânia, a crise inflacionista, e agora uma crise que decorre da guerra no Médio Oriente, afetando em primeiro lugar o preço dos combustíveis, mas que está a provocar um agravamento do custo de vida. A ideia de crise na vida dos portugueses, em particular dos que têm 40 anos ou menos, é de tal maneira presente, que passou de parecer um acontecimento intermitente para ganhar contornos de crise permanente.
Estas crises tiveram todas um forte pendor internacional, mas interpelam os governos na sua capacidade de gestão política de momentos de dificuldade e na sua capacidade de dar respostas adequadas aos problemas concretos que surgem.
Quando Montenegro apresenta como grandes medidas para responder ao aumento do custo de vida duas medidas que tomou em anos anteriores e que já contava tomar, independentemente da necessidade de responder ao aumento de preços, significa que desistiu de responder concretamente aos desafios. Porque responder à crise é saber avaliar os problemas, compreender que medidas lhes respondem melhor e saber a quem se devem dirigir prioritariamente. Em todos esses critérios, o Governo falhou. As medidas que anunciou deixam de fora os trabalhadores de menores rendimentos, precisamente os que mais sofrem com a inflação, cujos efeitos são sempre assimétricos.
O Governo assenta o seu discurso sobre a crise do custo de vida na redução do IRS e no aumento extraordinário dos pensionistas. Fá-lo insistindo na mentira de que se deve aos executivos de Luís Montenegro a redução do IRS desde 2023 (quando a maioria do impacto se deve ao último OE aprovado pelos governos socialistas e a propostas aprovadas no Parlamento sem o apoio da AD). Mas fá-lo, também, escolhendo uma medida que não é adequada para responder a um aumento do custo de vida: por excluir dois milhões de pessoas, por ser residual quem tem salário médio, por privilegiar mais quem menos precisa. Quanto ao bónus atribuído aos pensionistas, qual a justiça em apoiar duplamente quem recebe uma pensão de 1600 euros e não dar qualquer apoiar quem, trabalhando, recebe 920 euros e tem filhos?
Quando, durante a pandemia, se aprovou um layoff simplificado foi necessário criar uma medida que, num primeiro momento, tornasse possível o confinamento e, num segundo momento, incentivasse o regresso ao trabalho. Quando, em 2022, se aprovaram medidas de apoio aos rendimentos, foi necessário dar prioridade aqueles para quem o aumento do custo de vida é mais impactante e apoiar diretamente aqueles que dependiam de apoios sociais, aqueles que recebiam o SMN, as classes médias e as famílias com filhos. Medidas adequadas a problemas diferentes, com respostas distintas e focadas. O oposto do que agora aconteceu.
Combater a inflação é difícil, porque os custos das medidas são altos, os benefícios sempre limitados e os riscos não são despiciendos. Tem sido por isso que quase todos os incumbentes têm sido derrotados em eleições. Mas este Governo parece nem tentar responder aos desafios dos transportes, da transferência do aumento dos combustíveis para os alimentos ou das famílias com filhos, que enfrentam dificuldades adicionais. Isso precisaria de estudo e daria muito trabalho; e, apesar de nos ter pedido insistentemente, Luís não parece querer, ou não saber, trabalhar.
Fonte: Mariana Vieira da Silva. Expresso. 1 de outubro de 2026
