Não há inevitáveis
Em janeiro de 1989, Erich Honecker garantiu que o Muro de Berlim ainda estaria de pé dentro de 50 ou 100 anos. Caiu dez meses depois. Em política, as inevitabilidades duram menos do que parece. E as que parecem mais enraizadas são, tantas vezes, as mais frágeis.
Nas últimas semanas as manifestações pela habitação foram crescendo e tiveram esta semana mais pessoas, famílias inteiras e muitos, muitos jovens. Durante a última década parecia inevitável a tendência dos jovens para o afastamento da vida política ou para uma presença online sobretudo mediada (ou limitada) pelo algoritmo, e alinhada com a extrema-direita. Esta é uma realidade internacional da última década, mas que tem a sua demonstração nacional.
A insatisfação não pode surpreender ninguém. Desde 2016 as casas subiram 2,6 vezes; enquanto o salário médio subiu 1,4 vezes. E as dificuldades aumentaram nos últimos dois anos. Quando a AD tomou posse, os preços da venda de casas cresciam 7% ao ano. Dois anos depois, estão a crescer 18% — mais de duas vezes e meia o ritmo de então. E não é por estarem a acompanhar dinâmicas europeias, os preços em Portugal estão a crescer ao triplo da velocidade da zona euro.
As manifestações pela habitação das últimas semanas, iniciadas pelos jovens, foram crescendo e juntaram famílias inteiras. Jovens que se julgavam desinteressados organizaram-se coletivamente e, até ver, não responderam à violência. É essa inevitabilidade do fechamento sobre si, num algoritmo que lhe consome a vontade de participar e agir, que fica em causa quando os jovens se mobilizam. E compreende-se que isso gere reações.
Mas as palavras importam. Quando o Governo estabelece em €2300 o limite de uma renda a que chama “moderada” para efeitos de benefícios fiscais, transmite uma distância em relação à vida de quem trabalha. Quando o primeiro-ministro fala em razões “meramente egoísticas” para as manifestações, ou o presidente da Câmara do Porto promete ser “implacável” com as tendas, contribuem para apoucar a preocupação de quem protesta.
O que não é admissível é que o desconforto de quem governa se traduza em orientações que se criem limites, ameaças e violência contra manifestações pacíficas, revisitando leis e reinterpretando-as de modo a impor limitações irrazoáveis aos protestos, descrevendo-as como contendo uma violência que manifestamente não têm, ou mesmo assumindo que a resposta adequada a uma ilegalidade (que está por demonstrar) é a violência.
Na Sérvia, um grupo de estudantes que se juntaram em protestos evoluiu para um movimento político que federou a oposição democrática contra um poder que dominava a comunicação social e o Estado. No domingo, venceram as legislativas com 52%, numa derrota estrondosa de um dos mais sólidos aliados de Putin no continente.
Também no Brasil, foram os jovens que iniciaram um movimento que pela primeira vez conseguiu impor-se nas redes sociais apesar de múltiplos bloqueios do algoritmo da Meta. Gerou-se a partir daí um movimento intergeracional que deu a vitória de Lula quando já todos previam uma vitória do bolsonarismo.
No fim de semana dois países mostraram que as vitórias da extrema-direita não são inevitáveis e que parte desse combate passa pelos jovens se voltarem a mobilizar para defender os seus direitos. Deixemos, pois, que — no quadro da lei e da constituição — se mobilizem. Ouçamo-los. Por eles, pelo país, pela democracia.
Fonte: Mariana Vieira da Silva. Expresso. 29 de outubro de 2026
