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Publicado por Cláudia Veloso em 2 de Novembro 2026
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  • Data2 de Novembro 2026
Segunda-feira, 2 Novembro, 2026

A imigração salvou a construção

Autor: Carlos Pereira
Meio: Público

Num setor que perdeu dezenas de milhares de trabalhadores nacionais, envelheceu e deixou de atrair jovens em número suficiente, a imigração tornou-se um dos principais suportes da recuperação.

O debate sobre a crise de habitação está ao rubro e recentemente entrou na discussão o tema da evolução da oferta de casas em Portugal. Ora, para compreender as atuais dificuldades em construir habitação, é indispensável olhar para o que aconteceu ao setor da construção entre 2010 e 2015. Nesse período, Portugal não sofreu apenas uma redução temporária da atividade. Assistiu a uma verdadeira destruição de capacidade produtiva. Desapareceram empresas, perderam-se trabalhadores qualificados, reduziu-se o investimento em equipamentos e uma parte significativa da mão de obra abandonou o setor ou emigrou.

Os números mostram a dimensão desta transformação. Entre 2010 e 2015, o valor acrescentado bruto (VAB) da construção, em termos reais, caiu de cerca de 10,5 mil milhões para 7,1 mil milhões de euros: uma contração superior a 32%. O emprego passou de aproximadamente 436 mil trabalhadores, em 2010, para menos de 275 mil, em 2014. Em apenas quatro anos, o setor perdeu mais de 160 mil trabalhadores, o equivalente a 37% da sua força de trabalho. O stock de capital das empresas de construção diminuiu cerca de 30% em termos reais entre 2010 e 2017. Isto revela que a recuperação do emprego foi mais rápida do que a recuperação do capital. São estas as razões pelas quais, em 2015, o país observou o valor mais baixo de sempre na construção de habitação, com apenas 7,1 mil casas construídas. Em 2010, tinham sido construídas 35,4 mil casas.

Esta contração teve consequências que não desapareceram quando a economia voltou a crescer. Foi apenas a partir de 2016 que se iniciou uma recuperação, mas num contexto de completo desmantelamento da construção civil. Em 2023, o VAB real da construção já tinha recuperado cerca de 37% relativamente ao mínimo de 2015. O emprego aproximava-se dos 379 mil trabalhadores e, nesse contexto, a construção de casas também cresceu para valores acima das 22 mil. Mas recuperar não significou regressar ao ponto de partida. Em 2023, o VAB real da construção continuava 7% abaixo de 2010, o emprego era ainda 13% inferior e o número de novos fogos concluídos permanecia 37% abaixo. Na engenharia civil, o volume real de atividade encontrava-se cerca de 19% abaixo do nível de 2010. O grau de destruição do setor tinha sido extraordinário. Uma hecatombe!

Mas no centro desta discussão estão os imigrantes, que determinados setores consideram ser uma das razões para a crise que se vive. Vejamos, então, o tema sob outro prisma: num cenário sem imigração! Em 2010, os estrangeiros representavam apenas 5,5% dos trabalhadores por conta de outrem na construção. Essa proporção subiu para 10% em 2019, 24% em 2023, 29% em 2024 e 32% em 2025.

Num setor que perdeu dezenas de milhares de trabalhadores nacionais, envelheceu e deixou de atrair jovens em número suficiente, a imigração não teve um papel marginal. Pelo contrário, tornou-se um dos principais suportes da recuperação. Sem imigração, o setor não estaria apenas um pouco pior. Estaria estruturalmente mais pequeno, mais envelhecido e menos preparado para responder às necessidades de habitação e investimento. Sem imigração, o problema da crise de habitação seria bastante mais grave!

Fonte: Carlos Pereira. Público. 1 de novembro de 2026

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