A Democracia não se resolve à bastonada
Há problemas que um Governo não pode resolver com a força. A crise da habitação é um deles.
Em Portugal, há uma geração inteira a adiar projetos de vida porque não consegue comprar ou arrendar uma casa. Há famílias a entregar uma parte incomportável dos seus rendimentos para terem um teto. Há jovens que trabalham, estudam e descontam, mas que continuam sem conseguir conquistar a sua independência. Esta não é uma crise de expectativas. É uma crise real, profunda e que exige respostas políticas urgentes.
Quando milhares de pessoas saem à rua para exigir o direito a uma habitação digna, o primeiro dever de um Governo é escutar. Não desvalorizar, não estigmatizar e muito menos transformar uma reivindicação social num problema de segurança.
O direito à manifestação e à liberdade de expressão são conquistas fundamentais da nossa Democracia. Não são concessões do poder político, nem direitos que se suspendem quando incomodam quem governa.
As imagens das cargas policiais em Lisboa e no Porto, com recurso a bastões e à força física sobre manifestantes pacíficos, são profundamente inquietantes.
A polícia tem o dever de garantir a segurança e a ordem pública, mas esse dever não dispensa o respeito pelos princípios da necessidade, adequação e proporcionalidade.
O uso da força exige escrutínio, transparência e responsabilidade. É por isso indispensável apurar integralmente o que aconteceu e esclarecer as responsabilidades.
Uma democracia não se mede apenas pela capacidade de garantir a ordem. Mede-se, sobretudo, pela forma como trata quem discorda, protesta e exige melhores condições de vida.
O Partido Socialista tem sido claro: a saída para a crise da habitação é política, nunca policial. O Governo tem de abandonar a tentação de responder com autoridade a problemas que exigem soluções. Mais habitação pública, mais oferta a preços acessíveis, proteção de quem arrenda e condições para que os jovens possam construir o seu futuro são parte desse caminho.
Há uma linha que não podemos deixar ultrapassar. Quando o protesto é tratado como uma ameaça e a contestação como um incómodo, a democracia fica mais frágil.
Portugal conquistou a liberdade há mais de cinquenta anos. Não podemos permitir que o medo de a exercer volte a fazer parte da vida dos portugueses.
A habitação é um direito. A liberdade de protestar também.
Fonte: Luís Dias. O Digital. 2 de novembro de 2026
