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Publicado por Cláudia Veloso em 12 de Setembro 2026
Categorias
  • Data12 de Setembro 2026
Sábado, 12 Setembro, 2026

Ensino superior: onde sobram vagas, faltam políticas

Autor: Aida Carvalho
Meio: O Interior

Os resultados do acesso ao ensino superior voltaram a expor uma desigualdade que há muito conhecemos. A geografia continua a pesar nas escolhas dos estudantes e, quando terminam as colocações, é sobretudo nas instituições do Interior que ficam as vagas por preencher.

Na 1ª fase do Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior foram colocados quase 50 mil estudantes, o segundo melhor resultado desde 2020. É um dado positivo. Mas a leitura nacional esconde diferenças territoriais significativas. Enquanto as instituições do litoral atingiram uma taxa de ocupação próxima dos 94%, as do interior ficaram pelos 69%.

Mais revelador ainda: embora representem apenas 19,8% das vagas inicialmente colocadas a concurso, as instituições do Interior concentram 52,4% dos lugares que ficaram disponíveis para a 2.ª fase. Mais de metade das vagas por preencher encontra-se, assim, numa parcela do território que representa menos de um quinto da oferta nacional.

Não estamos perante uma oscilação ocasional. Os números variam entre anos, instituições e cursos, mas a tendência permanece: existe uma dificuldade estrutural em atrair estudantes para uma parte significativa da oferta de ensino superior localizada no interior.

Temos exemplos muito próximos. Na Escola Superior de Turismo e Hotelaria, em Seia, das 76 vagas da 1.ª fase, apenas duas foram preenchidas. É um resultado que merece reflexão, tanto mais numa escola dedicada a uma área com particular importância económica para a Serra da Estrela.

Mas há também sinais positivos. A Universidade Politécnica da Guarda colocou 372 estudantes, mais 94 do que em 2025, e cursos como Enfermagem e Design de Equipamento e Ambientes preencheram todas as vagas. Não existe, portanto, uma inevitabilidade que condene as instituições do Interior à falta de procura.
Também as instituições têm de fazer a sua parte, avaliando a oferta formativa, acompanhando as mudanças na procura, reforçando a ligação às empresas e apostando em áreas diferenciadoras. Um curso não se torna atrativo apenas porque existem vagas. Mas seria um erro transformar um problema territorial numa responsabilidade exclusiva das instituições.

Às 6.639 vagas inicialmente disponíveis para a 2ª fase juntaram-se 4.512 lugares de estudantes colocados que não efetuaram matrícula. São mais de 11 mil vagas novamente disponíveis. Não sabemos todas as razões que explicam estas desistências. Mas sabemos que o custo do alojamento, as deslocações e as despesas de estudar longe de casa pesam nas escolhas das famílias.
É aqui que a discussão deixa de ser apenas sobre ensino superior e passa a ser também sobre coesão territorial.

Por isso, é particularmente difícil compreender que, perante a persistência destes números, o Governo tenha decidido extinguir o Programa +Superior.
Criado por um Governo do Partido Socialista, o programa procurava incentivar a frequência de instituições de ensino superior localizadas em regiões de menor procura, apoiando a mobilidade dos estudantes. A bolsa chegou aos 1.700 euros anuais. Não pagava, naturalmente, todas as despesas de um estudante deslocado, mas representava cerca de 142 euros por mês. Para muitas famílias, é um apoio que conta.

O que mudou na realidade do Interior para justificar o fim deste apoio?
Os números deste ano não mostram que o problema tenha desaparecido. Mostram precisamente o contrário. As instituições do Interior representam menos de um quinto das vagas inicialmente colocadas a concurso, mas concentram mais de metade das que ficaram por preencher.

Podemos discutir se o +Superior precisava de ser melhorado, atualizar o valor das bolsas, rever os critérios ou articulá-lo com outras políticas. O que dificilmente se compreende é que a resposta às suas limitações seja simplesmente acabar com ele.

Há aqui uma contradição que o Interior conhece demasiado bem. Reconhece-se a perda de população, fala-se da necessidade de atrair e fixar jovens, invoca-se a coesão territorial, mas retiram-se instrumentos dirigidos precisamente aos territórios que partem de uma situação mais desfavorável.

O ensino superior é, também ele, uma política de coesão. Um estudante que escolhe a Guarda, Seia, Castelo Branco, Bragança ou Vila Real não ocupa apenas uma vaga numa licenciatura. Vive nesse território durante vários anos, participa na sua economia, estabelece relações, realiza estágios e pode encontrar ali uma oportunidade profissional. Atrair estudantes é também criar possibilidades de fixação futura.

Não basta, por isso, anunciar que existem vagas no Interior. É preciso criar condições para que sejam escolhas reais: alojamento acessível, transportes, apoios à mobilidade, formação diferenciadora e uma ligação efetiva às empresas e às oportunidades de emprego.

As instituições do Interior não podem ser o lugar onde ainda há vagas depois de esgotadas as opções do litoral. O desafio é fazer com que um jovem veja uma instituição do Interior não como a vaga que sobrou, mas como uma escolha que vale a pena fazer.

Defenderemos, por isso, uma política de apoio à mobilidade dos estudantes para as instituições do Interior, atualizada e integrada numa estratégia mais ampla de formação, alojamento, transportes e emprego.

A todos os novos estudantes, e muito especialmente aos que escolheram estudar no Interior, desejo um excelente ano académico.

 

Fonte: Aida Carvalho. O Interior. 12 de setembro de 2026

 

 

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