Hotel de Turismo da Guarda: em que janeiro?
Escrevo este texto em janeiro de 2026. Um ano depois do mês em que o Governo garantiu que arrancariam as obras de requalificação do Hotel de Turismo da Guarda. A distância entre a promessa e a realidade ajuda a esclarecer muita coisa.
O Hotel de Turismo da Guarda não é apenas um edifício encerrado há anos. É um símbolo maior de expectativas criadas e sucessivamente adiadas. Um equipamento emblemático, com valor patrimonial, turístico e estratégico, que continua a marcar a paisagem da cidade como um lembrete incómodo de promessas não cumpridas.
Em 2024, o Governo anunciou na Guarda que a requalificação do hotel arrancaria em janeiro de 2025. A afirmação foi clara, pública e feita com a solenidade de quem quer transmitir segurança e compromisso. Não se falou de intenções. Falou-se de obra e de datas.
Janeiro de 2025 chegou e passou. Janeiro de 2026 acaba de chegar. E, entre um e outro, nada aconteceu.
Perante a ausência de explicações, coloquei uma pergunta formal ao Governo. A resposta, já conhecida, não deixa margem para dúvidas. O contrato celebrado entre o Turismo de Portugal e a ENATUR foi revogado por mútuo acordo. Por essa razão, a requalificação do imóvel não teve sequência. O que o Governo anuncia, em alternativa, é a intenção de colocar o edifício no mercado para reabilitação e exploração hoteleira, através de um procedimento administrativo ainda em curso.
Em termos simples, o Governo parece ter desistido. Não há obra, não há calendário, não há compromisso público com uma intervenção concreta. Há apenas a transferência da responsabilidade para o mercado, sem garantias de prazo, de modelo ou sequer de desfecho.
Vista a partir de janeiro de 2026, a dúvida impõe-se com ainda maior clareza. Quando foi prometido para 2025 o início das obras em Janeiro, estava-se a falar de Janeiro de que ano?
Infelizmente, este caso não é isolado. É mais um sinal de uma forma de governar em que o Interior surge, demasiadas vezes, como mera flor de lapela. O Governo PSD/CDS já deu provas suficientes de que, quando chega o momento de passar das palavras aos atos, somos esquecidos.
O abandono do Hotel de Turismo da Guarda não é apenas simbólico. Tem impactos reais na economia local, na estratégia turística e na confiança de quem aqui vive e investe. Cada promessa falhada aprofunda a sensação de distância entre o poder político e os territórios do Interior, reforçando a ideia de que o desenvolvimento continua a ser decidido longe de quem mais dele precisa.
A Guarda não pede privilégios. Pede seriedade, coerência e respeito pela palavra dada. Pede que os compromissos assumidos publicamente sejam cumpridos e que o Interior deixe de ser tratado como espaço de espera permanente.
Continuarei a exigir esclarecimentos e a defender uma solução efetiva para o Hotel de Turismo da Guarda. Não podemos continuar eternamente à espera de um janeiro que nunca chega.
Fonte: Ainda Carvalho. Jornal O Interior. 10 de janeiro de 2026
