Imigração: quando o ódio enfraquece um país
Portugal é, hoje, um país dividido entre a memória e o medo. A memória de um povo que emigrou durante gerações para todos os continentes. E o medo, cada vez mais incentivado, em relação àqueles que agora escolhem Portugal para viver, trabalhar e contribuir.
Vivemos um tempo em que o Governo opta por ceder à retórica da extrema-direita, que transforma a imigração na raiz de todos os males, que desconfia de quem chega, que associa a diferença ao risco e que insinua o perigo de uma invasão de costumes e culturas.
Mas a realidade é outra. E não podemos ignorá-la.
Mais de 13% dos trabalhadores por conta de outrem em Portugal são cidadãos estrangeiros. A maioria está ativa, integrada e a cumprir obrigações fiscais e laborais, como qualquer trabalhador nascido dentro de fronteiras.
Só em 2024, os trabalhadores imigrantes contribuíram com cerca de 3,6 mil milhões de euros para a Segurança Social. As prestações recebidas por esta faixa da população foram quase sete vezes inferiores.
Esta é uma tendência que se tem vindo a consolidar. Em 2023, o saldo também foi amplamente positivo: 2,7 mil milhões de euros em contribuições e apenas 483 milhões em prestações. Em 2022, os imigrantes contribuíram com 1,9 mil milhões, recebendo apenas cerca de 257 milhões.
A imigração, maioritariamente jovem e trabalhadora, dá muito mais ao sistema do que recebe. É um dos pilares da sustentabilidade da Segurança Social. Sem estas pessoas, as pensões já estariam em risco. Sem elas, muitos serviços deixariam simplesmente de funcionar.
Apesar disso, o discurso político endureceu. Multiplicam-se as declarações que colocam os imigrantes no centro dos problemas. E há quem aplauda essa mudança de tom. Mas quem alimenta o crocodilo acaba comido por ele, diz um velho ditado. Ao adotar a linguagem e as propostas da extrema-direita, o Governo legitima o medo e desvaloriza os valores democráticos que deviam ser inegociáveis. Não é apenas um erro ético. É um desvio estratégico e político de consequências profundas. Os partidos democráticos não ganham força imitando quem os quer destruir.
A decisão de encerrar a Pousada de Santa Luzia, em Elvas, por falta de trabalhadores, é um sinal claro do que já está a acontecer. Uma unidade histórica, com 83 anos de atividade, que fecha por não conseguir recrutar pessoal. E este não é um caso isolado. Também no distrito da Guarda tenho ouvido insistentes pedidos de ajuda. Agricultura, construção civil, turismo, hotelaria, restauração e cuidados sociais são setores que dependem cada vez mais de trabalhadores imigrantes. Sem eles, a economia simplesmente para.
Vale a pena lembrar outro provérbio que devia interpelar-nos: não peças a quem pediu, não sirvas quem serviu. Portugal foi durante décadas um país de emigrantes. Milhares de famílias partiram em busca de trabalho e dignidade. Foram acolhidas noutros países, muitas vezes para fazer os trabalhos que lá ninguém queria fazer. E agora, que tantos estrangeiros procuram em Portugal o mesmo que nós procurámos lá fora, viramos-lhes as costas? Esquecemos assim tão depressa a nossa própria história?
É uma posição incoerente. É injusta. E é perigosa.
Portugal necessita de imigração. O país está envelhecido, com centenas de milhares de postos de trabalho por preencher. Precisa de quem cá queira viver, trabalhar, pagar impostos, ter filhos, salvar os negócios em risco.
Precisa de políticas sérias, humanas e eficazes. O Partido Socialista sempre defendeu esse caminho. Com vias legais seguras, combate à exploração, igualdade nos direitos e nos deveres. Sim, nos direitos e nos deveres.
Em vez disso, vemos recuos. Obstáculos administrativos. Discurso securitário. Inação política. Silêncio cúmplice perante as narrativas de ódio.
Isto não é firmeza. É cedência.
O que está em causa não é apenas a política de imigração. É uma escolha sobre o país que queremos ser. Ou reafirmamos os valores da democracia, da dignidade e da justiça; ou deixamo-nos arrastar pelo medo, pelo preconceito e pelo oportunismo.
Este caldo de conflito social serve de cortina de fumo para esconder os verdadeiros problemas que o Governo não tem coragem de enfrentar: na saúde, na habitação, na economia, na coesão territorial e social.
Quando a cortina se dissipar, será tarde. E encontraremos um país pior para todos.
Fonte: Aida Carvalho. Jornal O Interior. 9 de agosto de 2025
