O Logro do “Construir Portugal”: Quando a Realidade Desmente a Retórica
Existe um abismo entre o que o Governo anuncia e o que o país vive. A entrevista do presidente do IHRU, Benjamim Pereira, ao *Expresso*, é a prova de um logro. Enquanto o ministro Miguel Pinto Luz apresenta o programa “Construir Portugal” como uma solução revolucionária, o seu próprio “braço armado” para executar essas políticas confessa-se desarmado e empurrado para uma missão impossível.
A primeira grande mentira é operacional. O Governo promete 59 mil casas até 2030, mas esqueceu-se de perguntar ao IHRU se este estava preparado para as projetar e construir. A resposta, dada pelo seu presidente, é um retrato de abandono: falta de meios humanos e técnicos, equipamentos e modernização. Este não é um detalhe técnico; é a falência de uma estratégia feita de papel. Enquanto isso, famílias desesperadas formam filas à porta do IHRU desde a madrugada, numa luta humilhante por uma das 20 senhas diárias de atendimento, esperando respostas há mais de um ano. Isto é o rosto real da “reforma do Estado” do PSD.
A segunda mentira, ainda mais cínica, é a do conceito de “renda moderada” de 2.300 euros. O próprio presidente do IHRU rejeita-a, afirmando que não faz sentido aumentar até esse valor, que é uma exceção e não uma regra. Os números do instituto desmascaram a farsa: o teto mais alto do Porta 65 para um T5 em Lisboa é de 1.858 euros de renda, e o apoio médio à renda é de cerca de 100 euros, sendo o máximo de 200 euros. Pergunto: que família portuguesa, que verdadeiramente luta por uma casa, ganha metade desse valor “moderado”? A medida, que até o Governo já reconheceu como um erro, revela uma visão de gabinete, totalmente desligada do país real. É um benefício fiscal para senhorios e não um apoio para os inquilinos. Não é objetivamente uma política para garantir o acesso à habitação.
Finalmente, a prometida modernização do Estado, tão anunciada pelo PSD, não passa pelo IHRU, nem a Habitação é uma prioridade nacional para o Governo. O Instituto contradiz os discursos grandiosos sobre reforma e eficiência do Estado. Prova disso é o referido pelo presidente do IHRU sobre a falta de meios e equipamentos técnicos. Caso para dizer: mais uma reforma da treta, na Habitação.
Concluo: não se constrói Portugal com anúncios vazios e medidas de secretária. Constrói-se com instituições fortes, políticas sérias ajustadas à realidade das pessoas e um respeito básico pela verdade. Até lá, o “Construir Portugal” será apenas mais um capítulo na longa história de promessas de um ministro sempre em campanha, mas cuja ação termina na frustração das famílias à porta do IHRU.
