O silêncio
Expectavelmente, a entrevista que marcou a semana produziu reações para todos os gostos. Desta vez, não foi apenas burburinho. E o caso não é para menos: em Portugal, ninguém tem memória de um antigo primeiro-ministro se propor a render o incumbente, do seu próprio partido e com um vasto passado em comum, de uma forma tão nítida e crua.
O ressentimento foi o pano de fundo da conversa amena que Pedro Passos Coelho manteve com Maria João Avillez no passado domingo, na qual, na substância, quase tudo ficou por perguntar. Para além de banalidades proferidas de forma grave, seráfica, aqui e acolá quase dramática, não se apresentou uma única ideia para o país. De igual modo, não se vislumbrou a mais pequena reflexão – já nem digo autocrítica – sobre os já de si duros anos da troika, que o chefe de Governo de então procurou endurecer com a sua aposta deliberada não apenas na austeridade, mas também em fórmulas neoliberais radicais, muitas das quais o tempo se encarregou de provar tremendamente erradas.
Prefiro focar-me, todavia, no dado mais surpreendente do rescaldo da entrevista: o silêncio.
Esperava ouvir militantes, dirigentes ou simpatizantes do PSD (e também do CDS e da própria IL, porque não?) rejeitar corajosamente a ideia perigosa de que o caminho da governação à direita deve contar estruturalmente com o Chega. Mas assim não sucedeu.
Para reconquistar a confiança dos portugueses, o PS sabe que tem de ser mais do que a negação das direitas. E terá de se reencontrar consigo próprio e com um país que exige do campo progressista uma agenda renovada de consciência social e ambição económica – sempre ambas as dimensões. É esse trabalho de filigrana e paciência, também ele de profundo respeito pelos eleitores, que terá de continuar a fazer nos próximos tempos. E para o qual conta agora com um impulso que não pediu: à direita, ficou tudo às claras para o presente e para um futuro próximo.
Afinal de contas, dentro do PSD parece já não existir uma corrente moderada com expressão, vocal, mais próxima dos partidos de centro-direita que, na Europa, percebem o perigo da normalização de quem trata sem dignidade o património democrático, desde logo as suas instituições. Infelizmente. Que ninguém se iluda: o caminho que a direita oferece, nas suas diferentes versões, é para ser feito de mãos ou de braços dados com o Chega.
Não se vislumbrando na direita tradicional portuguesa outro caminho que não o da equivalência entre o PS e a extrema-direita ou o da própria junção de direitas de naturezas tão distintas, a responsabilidade da esquerda democrática cresce, e muito. Como também cresce o seu espaço potencial de convencimento dos eleitores, numa era em que a polarização tratou de ir desconstruindo o velho conceito de catch-all parties.
A direita parece não ter nada para oferecer ao país. E o que tiver de novo “que não seja mais do mesmo” é algo a que a esmagadora maioria dos portugueses não quer assistir.
Fonte: João Torres. Público. 16 de outubro de 2026
