Proposta do novo despacho de vagas: miopia estratégica
O Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI) pretende aumentar em até 10% as vagas do acesso ao ensino superior português, para o ano letivo de 2026/2027. Esta medida surge após as alterações recentes ao sistema de acesso terem causado uma forte quebra de ocupação nas instituições do interior, como o Instituto Politécnico da Guarda, que passou de uma taxa de 86,2%, em 2024/25, para apenas 67,7%, em 2025/26. Esta queda drástica de alunos ameaça a sustentabilidade regional e levanta preocupações sobre o futuro destas instituições.
A tutela justifica a medida com o objetivo de promover o «bem-estar» dos estudantes e aproximá-los das instituições das suas áreas de residência. No entanto, especialistas alertam para o risco de agravamento das assimetrias entre litoral e interior. O aumento indiscriminado de vagas nos grandes centros urbanos poderá concentrar ainda mais estudantes em Lisboa e no Porto, cidades que já detêm mais de metade das vagas nacionais, fragilizando as instituições do interior e agravando problemas sociais, como a falta de habitação nas áreas metropolitanas. Em circunstância contrária, recorda-se que, em 2018, o Governo do Partido Socialista teve coragem política e reduziu cerca de 1.100 vagas em Lisboa e no Porto, promovendo uma maior distribuição regional dos estudantes. Perante a atual proposta, o Coordenador do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos (CCISP) já manifestou preocupação quanto à sustentabilidade das instituições localizadas em regiões de menor pressão demográfica, tornando-se urgente rever a proposta do MECI, sob pena de acentuar o esvaziamento das instituições do interior, prejudicar a coesão e a sustentabilidade regional e comprometer o papel estratégico destes estabelecimentos na qualificação do território.
Reconhecemos que “já vão longe os tempos” de adoção de agendas mobilizadoras, medidas concretas e a definição de uma estratégia e visão transformadora das regiões do interior, limitando-se o atual governo a inaugurar projetos lançados pelo PS, condenando cada ano este território. Mas, enfim…!
Fonte: Aida Carvalho. Jornal O Interior. 6 de dezembro de 2025
