São as desigualdades, estúpido I
Vivemos nos últimos anos uma tensão entre duas narrativas: os que alegam que tudo está melhor, com mais rendimentos, menos pobreza e menos desigualdades, e os que alertam para um extremar das desigualdades e para o sentimento de estagnação. Como geralmente acontece nestas situações, ambos estão certos e errados.
De facto, entre 2014 e 2024 a taxa de pobreza em Portugal desceu mais de 5 pontos, para 14,4%. Também as desigualdades diminuíram neste período, com o Índice de Gini a baixar de 34% para 30,9%, acompanhado por reduções nas desigualdades entre os 20% e os 10% mais ricos e os 20% e os 10% mais pobres. A mesma evolução acontece a nível global.
Em sentido contrário, a concentração de riqueza nos 1% dos mais ricos tem vindo a crescer de forma consistente desde os anos 80, com destaque particular para o pós-crise financeira, e é ainda mais visível na concentração de riqueza nos 0,1%. Neste caso com ritmos globais muito superiores ao que acontece em Portugal.
Não se trata aqui apenas de riqueza monetária, mas de elevados níveis de desigualdades na experiência de vida, concentração de oportunidades e acesso ao poder — agora exposto a todos nas redes sociais — que têm contribuído para uma perceção de aumento das desigualdades que contraria os indicadores até aqui utilizados.
A verdade é que essa perceção existe, é muito explorada pelos populistas e tem tido significativas consequências eleitorais. E assenta em dimensões da desigualdade expressas também em dados oficiais, mas nem sempre valorizadas pelos políticos: entre os proprietários de imóveis e os que não encontram uma casa para viver; entre os que vivem nos centros e os que perdem três horas em movimentos pendulares; entre os que viajam pelo mundo e os que não têm uma semana de férias fora de casa; entre os que conseguem dar aos seus filhos acesso ao ensino precoce de uma língua estrangeira ou de educação artística e os que não conseguem ultrapassar o insucesso escolar dos seus filhos; entre os que conseguem proteger a sua saúde através de hábitos de vida saudáveis e os que estão excluídos de algumas dimensões dos cuidados de saúde.
Sabemos que no tempo que vivemos a explicação meritocrática é a mais promovida pelos algoritmos; mas temos a obrigação de enfrentar o facto de estarmos a viver o período do pós-II Guerra com maiores desigualdades de oportunidades. E também de compreender que estas crescentes desigualdades não resultam principalmente do falhanço da redistribuição ou dos serviços públicos, mas sim de uma concentração de riqueza de tal modo extremada que precisa de novos instrumentos de regulação e correção. Isto implica considerar que o tema das desigualdades tem de estar no centro de todas as políticas económicas (nos salários, nos impostos, nos mercados) e não como uma responsabilidade posterior das políticas sociais.
Construir uma proposta política que insista que o período democrático nos trouxe melhores níveis de vida, mais oportunidades e mais justiça, mas que não deixe de reconhecer e compreender o sentimento de vida estagnada, incapacidade de projetar um futuro melhor e frustração, é o principal desafio de um partido progressista. Sem uma resposta alternativa àquela que a extrema-direita dá não há instituições democráticas nem apelos à paz que resistam. E espera-nos a forma como quase sempre se dirimiram estas tensões: autoritarismos, ditaduras e guerra.
Fonte: Mariana Vieira da Silva. Expresso. 6 de agosto de 2026
