Trabalhar Deixou de Chegar
Há uma distância brutal entre os discursos oficiais sobre a economia e o dia a dia de quem acorda cedo para trabalhar. Nos gabinetes, fala-se em estatísticas de emprego; na vida real, fala-se de orçamentos impossíveis e do aperto no peito ao chegar ao fim do mês.
A verdade é que a inflação persistente e o custo de vida devoraram o poder de compra de quem vive do seu trabalho. Não se trata de perceção: trata-se de uma erosão real que transforma o salário — que devia ser uma garantia de estabilidade e progresso — numa mera corrida contra o tempo para adiar o endividamento.
Multiplicam-se as casas onde ambos os adultos cumprem horários completos — muitas vezes acumulando extraordinárias ou segundos empregos — e que, ainda assim, vivem numa corda bamba. Quando o vencimento é absorvido por despesas fixas logo na primeira semana, a gestão da casa deixa de ser organização e passa a ser sobrevivência diária.
A ida ao supermercado tornou-se fonte de ansiedade. O cabaz de alimentos essenciais pesa como chumbo nas carteiras, obrigando a cortes sucessivos e à troca do essencial pelo mais barato.
Mas é na habitação que a situação atingiu contornos sufocantes. Entre rendas que não param de subir e prestações ao banco que escalaram, a casa consome fatias absurdas do rendimento. Em Setúbal, como noutros territórios da Área Metropolitana de Lisboa, a juventude vê-se obrigada a permanecer na casa dos pais até aos trinta e muitos, não por opção, mas porque o mercado os expulsou. A opção de renunciar à regulação da habitação e confiar apenas na mão invisível do mercado transformou o direito a um teto num privilégio inacessível.
Na mobilidade, as contradições acumulam-se. O Passe Navegante provou que a intervenção pública inteligente traz alívio direto às famílias, mas a atual falta de investimento e a incapacidade de reforçar a oferta deixaram o sistema sob forte pressão. O que deveria ser um serviço público eficiente transforma-se em teste à paciência, com supressões e atrasos que desgastam quem já sai de casa cansado.
Trabalhar 40 horas por semana tem de garantir autonomia e dignidade. Não pode servir apenas para liquidar faturas de água, luz, renda e comida. Quando a vida se reduz a pagar a existência e abdicar do resto, quebra-se o contrato social fundado no esforço do trabalho.
Isto exige escolhas corajosas e prioridades claras: a valorização dos salários médios e mínimos pela via da concertação social e do alívio fiscal no trabalho, o reforço urgente da habitação pública com a execução dos fundos europeus mobilizados, e a regulação firme das margens de lucro nos bens de primeira necessidade. Não aceito que viver em Portugal seja sinónimo de gerir escassez. Devolver tranquilidade a quem cria riqueza não é promessa eleitoral — é uma responsabilidade política e moral indeclinável.
