Turismo e ferrovia: um comboio que não podemos perder
O turismo no Interior tem vindo a afirmar-se como uma das dinâmicas mais consistentes de valorização territorial e de afirmação das potencialidades. Já não se trata apenas de uma alternativa discreta às rotas tradicionais. Trata-se de uma mudança de fundo: os territórios de baixa densidade, durante décadas vistos como marginais ou esquecidos, têm vindo a afirmar-se como destinos procurados por quem busca autenticidade, beleza natural e património vivo.
Distritos como o nosso estão a ser redescobertos, por portugueses e estrangeiros, como espaço de natureza, cultura, autenticidade e tranquilidade. Mas os bons indicadores, que são de facto encorajadores, devem também servir de alerta. Para que este crescimento seja sustentável, equilibrado e gerador de valor real para as comunidades locais, não basta esperar que os turistas venham. É preciso criar as condições certas para os receber, para os fazer regressar e para os distribuir pelo território, em vez de concentrar fluxos e impactos em poucos pontos.
E é precisamente neste ponto que entra uma questão central: a mobilidade ferroviária. A recente reabertura integral da Linha da Beira Alta constitui uma oportunidade que não podemos desperdiçar. Totalmente modernizada, esta linha recupera o seu papel estratégico como eixo de ligação nacional e internacional, posicionando-se como uma infraestrutura-chave para a mobilidade de passageiros e mercadorias. Mas esta reabertura só será verdadeiramente transformadora se for acompanhada de uma estratégia clara e ambiciosa, articulada com o turismo, com os agentes económicos e sociais do território e com a restante rede de transportes.
As potencialidades estão identificadas. Precisamos de paragens bem localizadas e valorizadas, horários compatíveis com a procura turística, passes intermodais que permitam combinar ferrovia, transportes regionais e circuitos locais, comboios temáticos que potenciem a paisagem e a cultura, e estações repensadas como pontos de receção e descoberta do território. A Linha da Beira Alta e a Linha da Beira Baixa devem ser promovidas em rede. Permitem desenhar circuitos turísticos ferroviários integrados, com centro na Guarda, abrangendo toda a Serra da Estrela e os territórios envolventes, mesmo para lá da fronteira.
Se queremos verdadeiramente construir um corredor ferroviário com impacto turístico e territorial, temos também de olhar com ambição para a Linha do Douro. É tempo de concretizar a reabertura do troço entre o Pocinho e Barca d’Alva. Os estudos técnicos e ambientais estão concluídos. O consenso político já foi alcançado, faltando a decisão.
O que está em causa é uma visão integrada de desenvolvimento territorial, onde a ferrovia é vista como instrumento de coesão, de sustentabilidade e de reequilíbrio. O Interior precisa de linhas. Mas precisa, acima de tudo, de estratégia e de vontades para transformar essas linhas em plataformas de futuro.
Poucas decisões têm tanto impacto real como voltar a ligar por ferrovia o que a distância, o tempo e o desinvestimento separaram. O comboio pode ser mais do que um meio de transporte. Pode ser, como foi há mais de um século, símbolo da mudança.
Fonte: Aida Carvalho. Jornal O Interior. 4 de outubro de 2025
