Um país em permanente adiamento e um Governo para a fotografia
Os mais recentes eventos climáticos do nosso país, catalisados pela tempestade Kristin que assolou vastas áreas, em especial a região centro, são sintomas claros dos impactos profundos que as alterações climáticas têm no território português. Quem o ignora jamais poderá liderar a adaptação e construir a resiliência necessária.
Portugal tem atravessado na última década vários eventos que deveriam ter feito “soar as campainhas”, embora alguns partidos políticos, como o Chega e a Iniciativa Liberal, teimem em olhar para eles como circunstancialismos conjunturais e não como ameaças estruturais ao nosso modo de vida.
A título de exemplo, em 2022, Portugal teve o ano mais seco dos últimos 90 anos, tendo sido, até 2024, uma década de anos extremamente secos, com regiões do País em seca extrema e com forte escassez hídrica, onde a ameaça de falta de água para abastecimento humano foi uma realidade. No ano hidrológico de 2023/2024 foram registados 154 eventos de cheias.
A isto somamos as dificuldades cada vez maiores no combate aos incêndios rurais. Os anos de 2024 e 2025 foram os anos com menos ignições de sempre no nosso país. O ano de 2025 sido o segundo com mais área ardida de sempre, apenas superado pelo fatídico ano de 2017.
Todos estes eventos representam custos enormíssimos para os cidadãos, empresas e para o País. Prejuízos na ordem dos milhares de milhões de euros.
Perante as adversidades climáticas, resta-nos essencialmente adaptarmo-nos, identificando bem as ameaças e, através de prevenção e reforço da resiliência de toda a infraestrutura nacional, em face das catástrofes, sermos rápidos e eficazes na resposta mitigando e minimizando os seus impactos.
Nunca se conseguirá prever tudo, nem se conseguirá ser perfeito nas respostas, mas a nossa comunidade científica e académica tem produzido, ao longo dos anos, documentação, planos e estratégias mais que suficientes que nos permitiriam não andarmos de calamidade em calamidade a começar do zero.
A simplificação mediática dos problemas que temos de enfrentar faz parecer que a culpa é sempre de outrem que não fez, não agiu ou não quis saber, mas a realidade é mais profunda.
Cada vez que somos confrontados com a necessidade de adaptação, deparamo-nos com impactos financeiros permanentes no bolso do cidadão/eleitor como é o caso de tarifas de eletricidade, da água, das águas residuais e pluviais ou com decisões políticas que implicam escolhas cujos efeitos não são mesuráveis no imediato, e isso faz com que as decisões sejam eternamente adiadas por quem de direito e, com isso, os investimentos ficam por fazer.
Cada vez que se começa a atacar de forma estrutural as razões da nossa floresta não ser resiliente e estar ao abandono e implementar recomendações de uma comissão técnica independente que produziu informação detalhada e relevante para adaptação futura, o que vemos é que basta mudar o governo do PS para o PSD e tudo ser abandonado e posto em causa. Na organização do combate aos fogos e nas iniciativas que permitiriam mudar a triste sina em que nos encontramos. Tal como nos prova a necessidade de reforma da propriedade rústica colocada na gaveta por este Governo, mas que o Partido Socialista recuperou e já apresentou na Assembleia da República.
Em cima de tudo isto temos um Governo claramente impreparado para ser aquilo que se exige – o principal agente de transformação, liderança e comando. Veja-se o caso dos combates aos fogos rurais no verão passado, a forma como respondeu perante o apagão de abril e agora perante os efeitos da tempestade Kristin.
O Governo tem-se revelado líder em fotos e vídeos para as redes sociais, mas muito pouco líder para o que interessa. Governam para a perceção que têm do seu trabalho em vez de trabalhar. Reagem tarde, quando deviam antecipar a ação.
Ainda esta semana, ouvimos o ministro das Infraestruturas falar que irão mandatar o LNEC para fazer a avaliação das infraestruturas críticas, mas quando se pergunta na Comissão Parlamentar de Ambiente no Grupo de Trabalho constituído sobre o apagão de abril passado sobre os planos de emergência das entidades e infraestruturas críticas obrigatórios nos termos da lei, o silêncio da resposta é ensurdecedor.
Depois da pandemia, o plano de recuperação e resiliência foi criado como resposta às necessidades identificadas no País que a Covid-19 deixou a descoberto. Lares, escolas, casas. Onde é que o dinheiro está a ser gasto? Em nada do que era suposto. Tudo o que era estrutural ficou pelo caminho.
Um governo sem liderança, onde os ministros são figuras decorativas e onde o Estado é visto como uma continuação do partido que nos governa, tendo sido substituídos gestores públicos com provas dadas e tecnicamente à prova de bala em áreas absolutamente essenciais para a continuidade das tarefas fundamentais do Estado, por companheiros partidários. A demissão da Ministra da Administração Interna é, pois, um sintoma do desnorte do Governo, que falha sempre que é chamado a governar. Só não falha nos vídeos para as redes sociais.
