
Crianças, jovens e adultos trans ficam desprotegidos com aprovação dos projetos do PSD, CDS e Chega
“Assistimos hoje ao primeiro esmagamento violento de um direito individual – o direito à autodeterminação – desde que a AD é Governo”, lamentou a deputada do PS Isabel Moreira depois de PSD, Chega e CDS-PP terem aprovado os seus projetos de lei sobre identidade de género, que preveem, entre outras alterações, a obrigatoriedade de validação médica para a mudança de nome e género no registo civil, iniciativas que contaram com os votos contra dos restantes partidos.
A socialista explicou, em declarações à comunicação social, que a “autodeterminação das pessoas trans, na especialidade, terminou hoje” e sublinhou que não é apenas das crianças, como a direita tem afirmado, mas sim de pessoas trans crianças, jovens e adultas.
A verdade é que o projeto de lei do Chega “não reconhece a autodeterminação de pessoas adultas”, esclareceu a parlamentar, estranhando que o deputado do CDS Paulo Núncio não tenha querido responder às perguntas dos jornalistas sobre este projeto que acabou por aprovar.
“Para o Chega, as pessoas trans não existem”
“Para o Chega, as pessoas trans não existem”
“Para o Chega, as pessoas trans não existem, não são pessoas”, lamentou Isabel Moreira, admitindo não compreender “a dificuldade dos partidos que compõem a AD em assumir isto”, depois de terem votado a favor do projeto.
Depois de tudo o que foi dito pelos partidos da direita democrática e da extrema-direita sobre o tema, ignorando a ciência para escreverem os seus projetos, Isabel Moreira clarificou que “os tratamentos hormonais dos jovens trans, antes da maioridade, são prescritos por médicos e não por uma lei, naturalmente”. Todo o processo é decidido por uma equipa médica, sempre acompanhado pelos pais que, obviamente, “não são maus pais nem más mães” e não precisam de “levar uma aula do Dr. Paulo Núncio”, ironizou.
A deputada do PS considerou “extraordinário que se invertam os significados das palavras chamando de ‘radicalismo’ àquilo que era uma lei consensual”. Na prática, “hoje quebrou-se não só um consenso científico”, como também as “obrigações que decorrem do Conselho da Europa, do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos e da ONU”, indicou.
PSD e CDS reagiram por instinto pavloviano
Isabel Moreira continuou a tecer críticas aos partidos que compõem a AD, acusando-os de “deitar por terra” uma conquista civilizacional “por mero tacticismo de colagem ao Chega”. E lembrou que, apesar de este tema não estar nos seus programas de Governo, PSD e CDS deram entrada a estes “projetos relâmpago num instinto pavloviano a seguir à entrada do projeto do Chega”.
“É uma conquista civilizacional que hoje foi deitada por terra por mero tacticismo de colagem ao Chega”
“É uma conquista civilizacional que hoje foi deitada por terra por mero tacticismo de colagem ao Chega”
A deputada garantiu que o Partido Socialista está com as pessoas trans e lamentou que estas estejam “num pacote de agenda de apagamento da democracia, que começa com os imigrantes, depois dirige-se às pessoas racializadas, depois às pessoas trans e depois ao ataque às instituições”.
Isabel Moreira pediu ainda aos partidos da AD que, em sede de especialidade, reflitam e “não invisibilizem as pessoas trans”, porque isso mata.