Todos devemos celebrar abril
Sou filha da liberdade, da tolerância, do respeito e do debate. Aprendi desde pequena a conhecer e celebrar abril, que sempre me foi apresentado como o momento que nos deu direitos e deveres, mas sobretudo deu-nos voz.
Vivi a festejar cada 25 de abril de cravo na lapela, símbolo maior de uma revolução pacifica em que o povo teve a palavra de ordem e definiu o nosso futuro coletivo.
Vivi sempre a achar que este orgulho de ter nascido em liberdade não se perderia na espuma dos dias ou na desenfreada mutação da nossa sociedade.
Hoje já não tenho tantas certezas. Vivemos tempos em que o ódio, tantas vezes disfarçado de opinião, passou a colocar-nos uns contra os outros. De repente uma comunidade passou a centrar-se quase exclusivamente na comparação individual ao invés de centrar-se no trabalho coletivo em prol de uma sociedade justa e melhor.
Os discursos populistas que ameaçam romper com a democracia, tantas vezes amparados nas justas reivindicações do povo, mas tantas vezes aproveitando-se do sofrimento alheio, tornaram abril ainda mais importante.
Falar do 25 de abril de 1974, falar da revolução dos cravos, falar da liberdade de opinar, do direito a participar, do dever de sermos parte de um projeto comum, é hoje central para que as novas gerações não coloquem esta data como um mero capitulo da nossa história coletiva.
É muito mais do que isso. Saibamos respeitar o legado dos nossos avós, dos nossos pais, inclusive de muitos dos que hoje ainda contribuem para a sociedade e que viveram na pele o “delito” de não poder divergir, de não poder exigir melhores condições de vida, de não poder criticar quando consideravam que a vida está a marcar passo.
Saibamos honrar abril em cada palavra que entoamos, em cada ação que perpetramos, em cada decisão que tomamos.
Abril é liberdade. Abril é respeito. Abril é comunidade. E cabe-nos a nós garantir que assim continue.
