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Publicado por Cláudia Veloso em 1 de Junho 2026
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  • Data1 de Junho 2026
Segunda-feira, 1 Junho, 2026

Quem diz é quem é

Autor: Mariana Vieira da Silva
Meio: Expresso

Quando, em 2023, o Governo de António Costa apresentou o pacote Mais Habitação, que incluía medidas que existem um pouco por toda a Europa, como as restrições ao alojamento local ou o arrendamento coercivo, e que têm sido aprovadas por Governos da direita conservadora e liberal, foi apelidado de “socialista radical”, “chavista”, “comunista e estatizante”. Já este ano, a poucos dias da segunda volta das eleições presiden­ciais, Luís Montenegro resolveu descrever André Ventura e António José Seguro como dois extremos face aos quais se considerou equidistante.

A política recente tem sido marcada por esta constante acusação de radicalismo a todos aqueles que se desviam das posições dominantes no espaço público mediático, em particular se se colocarem à esquerda (incluindo no centro-esquerda) do espetro político. Defender o respeito pelo direito internacional, a justiça fiscal, a qualidade de vida, a saúde pública, a educação para todos, o trabalho com direitos — tudo isso passou a ser apelidado de radical. Mesmo quando essas posições foram sempre as posições da social-democracia, aqueles que as defendem são agora “os radicais.” A expressão “radical” é hoje uma mera muleta retórica usada por quem quer desvalorizar o outro sem discutir argumentos nem apresentar evidências. É um chavão de quem quer projetar que do seu lado está a razão e do outro a ideologia. Mas é principalmente um instrumento para esconder que a polarização a que assistimos é assimétrica e que é à direita que ela tem assumido preponderância.

São incapazes de defender a contrarreforma laboral que apresentaram? Foi a UGT que se radicalizou. Estão isolados na defesa de uma intervenção militar ao arrepio do direito internacional? Foi o PS que se radicalizou. Querem associar àqueles que defendem os mesmos valores e políticas que sempre defenderam o extremismo a que crescentemente se aliam e associam.

Não é uma realidade exclusivamente nacional. Em muitas eleições nos últimos anos temos assistido a esta tendência. Na campanha americana de 2024, Trump apelidou recorrentemente Kamala Harris de comunista e marxista e apostou na definição do Partido Democrata como inimigo interno, afirmando numa entrevista em 2024: “Acho que o maior problema são as pessoas dentro do país. Temos pessoas muito más. Temos pessoas doentes, lunáticos da esquerda radical.” Também Friedrich Merz, líder da CDU e atual chanceler alemão, popularizou na campanha de 2025 a expressão “lunáticos de esquerda e verdes”, incluin­do nela partidos com os quais a CDU tinha estado e voltou a estar coligada.

Ao mesmo tempo, temos o Presidente dos EUA a afirmar que iniciou um ataque em que “toda uma civilização vai morrer esta noite”, dizem que radicais são os que condenam esta guerra e denunciam que ela contraria o direito internacional que nós e os nossos aliados sempre defenderam.

A estratégia é muito clara e tem décadas noutras democracias. Isolar os adversários políticos, caricaturar as suas posições, tratar os elementos programáticos históricos da social-democracia como inovações, mudanças de posição ou sinais de extremismo enquanto a aproximação à extrema-direita e ao autoritarismo se vai fazendo: na linguagem, nas políticas e mesmo nas alianças. E é por isso que é fundamental que aqueles no campo da social-democracia não se equivoquem e não repitam este discurso. Até porque é claro: serão os próximos a ser “os radicais”.

Fonte: Mariana Vieira da Silva. Expresso. 28 de maio de 2026

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