Turismo: onde param os ovos de ouro?
Entrámos em junho, época balnear, mês de Santos Populares. Com o calor, chegam também às nossas ruas milhões de turistas, em volume crescente. O turismo é a mais bem-sucedida exportação nacional, gerando 8,1% do Produto Interno Bruto. Mas não podemos mais evitar as perguntas do português comum: quanto mais turismo aguentamos? E que turismo queremos?
É preciso pôr as coisas em contexto. Apesar de Lisboa e Porto figurarem entre as cidades do mundo com mais turistas por mil habitantes, isto deve-se a serem cidades relativamente pouco populadas quando comparadas com as suas “rivais”. Com 8,5 e 3 milhões de turistas respetivamente, ambas estão ainda longe de Madrid com mais de 11 milhões de turistas e os colossos mundiais de Roma, Paris ou Londres, todas com mais de 20 milhões de visitantes. Se há uma enorme fileira de diversificação do turismo por fazer, no interior, nas ilhas e nas demais cidades, até em Lisboa e Porto, Portugal tem muito por onde crescer, se quiser.
O problema, dirão, é a capacidade de o país aguentar com tanta gente, de ter gente para servir quem nos visita e, claro, a excessiva dependência deste setor. Apesar de Portugal ter, de facto, o 2.º mais alto peso do turismo no PIB de toda a União Europeia, ficando apenas atrás da Croácia, as 59 milhões de noites turísticas de 2024 colocam-nos apenas como 8.º país com maior número de dormidas por mil habitantes. Mais uma vez constatamos que, para a mesma população, deveria ser possível atrair muito mais turistas do que os que estamos a receber.
É preciso sermos sinceros. Os anos loucos do turismo português acabaram. No 1.º trimestre, as dormidas e os hóspedes cresceram apenas 1,3 e 1,5%. Os proveitos cresceram 5,5%, o que impressiona os mais distraídos, não fosse ser necessário descontar a inflação e o crescimento do número de hóspedes. Tendo isto em consideração, e vendo como desenha uma trajetória descendente dos vários indicadores do setor, estamos perante uma assustadora travagem brusca de um dos motores do crescimento económico nacional.
Se isto já estava a arrefecer antes de fecharem o Estreito de Ormuz, imaginem agora. A crise que se prenuncia será ainda maior por causa da avalanche de oferta que se prevê nos próximos dois anos. Na mais recente edição do Expresso, o Presidente da Associação Hoteleira de Portugal, Bernardo Trindade, antevê a abertura de 39 novos hotéis nos próximos dois anos apenas em Lisboa, com 2900 quartos a acrescerem 10% à oferta disponível atualmente. É a “tragédia dos comuns” daqueles que achavam que todos podíamos cear os ovos de ouro da galinha.
Se, por um lado, temos uma abundância de oferta instalada fisicamente, outras dimensões revelam uma preocupante escassez. É incompreensível que tenhamos, verões seguidos, com crise nas fronteiras aeroportuárias. Ao contrário do que se poderia imaginar, a integração da componente policial do SEF na PSP veio não só aumentar o efetivo no Aeroporto, como permitir que mais rapidamente mais agentes a possam reforçar. Os desafios tecnológicos são resolúveis, como foram em todos os outros países do Espaço Schengen. Só não estão ao alcance de um Governo que não quer e não sabe fazer.
Também a nível dos recursos humanos a situação merece preocupação. O turismo, e os seus setores conexos dos transportes e restauração, são setores fortemente dependentes de trabalhadores estrangeiros. O Governo, ao invés de reconhecer isto, optou por fechar portas e mandar quem já cá estava embora, defraudando-lhes as legítimas expectativas que tinham. As entradas já reduziram 40% e regista-se um êxodo para destinos turísticos nossos rivais, como Espanha. A curto prazo, isto terá um efeito em vários setores mas, especialmente, num para o qual a qualidade do serviço tanto conta.
O turismo vive, portanto, numa “policrise”, termo de Edgar Morin que aproveito para homenagear. Não devemos subestimar o seu impacto em falências e desemprego. A maldição de sermos um país com tamanho potencial turístico é, mesmo, que esta pareceu, para muitos, ser uma bolha sem fim. Se em outras geografias e, em Portugal noutros tempos, a poupança seria reinvestida nos negócios familiares, em habitação que podia ser arrendada, em produtos de poupança que os aplicariam na sociedade, hoje é demasiado tentador investir o pequeno ou grande aforro em alojamento local e coisas semelhantes. Até o Estado se viciou em subsidiar o setor, com o Turismo de Portugal a entregar 31 milhões para eventos de interesse turístico em 2025 e o recente escândalo com os avultados apoios para os eventos “Chefs on Fire” e “Tribeca”.
Numa aplicação clássica da “maldição dos recursos”, a imensa rentabilidade deste setor faz-nos alocar-lhe capital e recursos humanos que fariam falta a outros setores. Portugal tem de continuar a valorizar este setor riquíssimo, não só na capacidade hoteleira, mas no património e na cultura. Temos de investir nas regiões onde ele menos chega, recuperando a Agenda do Turismo para o Interior abandonada por este Governo, mas também adaptando e atenuando o impacto que ele tem na vida das grandes cidades.
Estão enganados os negacionistas que acham que podem travar com as mãos a força deste setor. Mas também estão errados os que acham que podemos continuar a inquinar o campo em seu favor, desaproveitando o nosso potencial em tantos outros setores industriais e de serviços tecnológicos e altamente especializados. A diversidade faz a força e há muita economia além do turismo onde o país tem imenso valor. Vale a pena refletir e agir sobre isso.
