Estado da Nação: um ano de recuos e falhanços
O debate do Estado da Nação é, por tradição, um momento de balanço. O país pára para avaliar o caminho percorrido ao longo do último ano e o que falta percorrer. E qual é o balanço que podemos fazer? Área a área, os dados mostram um Governo que anuncia mais do que resolve e que deixa atrás de si mais problemas do que soluções.
Comecemos pela mais recente. Milhares de famílias vivem dias de angústia por causa do processo de correcção digital dos exames nacionais, implementado pela primeira vez este ano e marcado por gravíssimas falhas desde o início. É a educação dos jovens portugueses a pagar o preço de uma decisão mal preparada e de um Ministro que cortou nos recursos dos serviços do Ministério da Educação – chamou-lhe «reforma» – com os brilhantes resultados que estão à vista.
Na habitação, os números não deixam margem para equívocos: os preços das casas subiram quase 17% em 2025, o maior aumento da União Europeia, e continuam a bater recordes em 2026. As rendas sobem de forma sistemática e o acesso à habitação é virtualmente inacessível para a esmagadora maioria. A revogação do pacote «Mais Habitação», lançado pelo PS, e as medidas entretanto aprovadas pelo Governo PSD/CDS, apenas tiveram como resultado o aumento contínuo dos preços e o agravamento das dificuldades na compra e no arrendamento.
Na saúde, os números demonstram a contínua degradação do SNS. O Governo interrompeu uma reforma que estava em curso e empurrou para a demissão uma Direcção Executiva unanimemente competente e conhecedora. Como resultado, os indicadores pioraram todos. Segundo dados da própria Administração Central do Sistema de Saúde, 2025 fechou com menos cirurgias realizadas do que em 2024, a primeira quebra desde a pandemia, com menos consultas nos centros de saúde e menos partos. Muitos destes partos aconteceram em ambulâncias. Ao mesmo tempo, a lista de inscritos para cirurgia subiu para perto de 268 mil pessoas, das quais quase um terço já ultrapassava os tempos máximos de resposta garantidos, um agravamento face ao ano anterior. Mais de um milhão de utentes esperam por uma consulta hospitalar. E os hospitais do SNS fecharam o ano com um prejuízo de 2,7 mil milhões de euros e uma dívida de 1,4 mil milhões, mais quase 11% do que em 2024. Tudo isto apesar de mais profissionais e mais recursos financeiros no sistema.
Na economia, temos graves sinais de alerta. O Banco de Portugal e a Comissão Europeia apontam para o regresso do défice orçamental já em 2026, depois dos excedentes dos últimos anos com o PS. O PRR arrasta-se. E Portugal perdeu quota de mercado em mais de metade dos destinos para onde exporta, com Bruxelas a admitir que essa perda de competitividade se pode prolongar até 2027.
Na legislação laboral, o Governo acabou com a paz social e perdeu um ano em torno de uma contra-reforma que acabou chumbada no Parlamento. Um ano perdido a discutir o retrocesso nos despedimentos, no outsourcing e nos vínculos precários, sem que o país tenha avançado uma vírgula em matérias decisivas para o futuro, como a regulação da inteligência artificial no mundo do trabalho ou a valorização efectiva dos salários. Enquanto o Governo se entretinha a negociar com o Chega até à última hora, Portugal ficou parado numa agenda que devia estar a preparar o país para os novos desafios da economia digital.
A tudo isto soma-se o enorme aumento do custo de vida, que continua a pesar no orçamento das famílias, entre rendas, energia e bens essenciais, sem que os rendimentos acompanhem esse ritmo nem que o Governo apresente medidas de mitigação.
Este Governo, por incompetência e por opções próprias, está a falhar em áreas decisivas para os portugueses e para o futuro do país. O tempo está a contar. O país precisa de um Governo que resolva problemas, não que os crie ou que os agrave.
Fonte: Tiago Barbosa Ribeiro. Jornal de Notícias. 15 de julho de 2026
