Os alunos fizeram o exame. O Ministério falhou o teste.
Julho é sempre um dos meses mais exigentes para milhares de famílias no distrito de Setúbal e em todo o país. É o momento em que se fecham ciclos, se somam notas e se fazem contas ao futuro. Quem acompanha este percurso sabe bem do que falo: é um misto de orgulho, esperança e ansiedade.
Este ano, porém, ao nervosismo habitual dos exames nacionais juntou-se uma profunda revolta. O que aconteceu não foi um simples contratempo técnico. Foi uma falha grave de planeamento e de gestão por parte do Ministério da Educação.
A Ordem dos Engenheiros manifestou publicamente preocupação com as falhas identificadas nas plataformas utilizadas no processo de classificação dos exames. Também professores e estruturas representativas denunciaram problemas que afetaram o normal funcionamento do sistema. O resultado foi claro: o Ministério da Educação viu-se obrigado a adiar a afixação das pautas e a segunda fase dos exames.
Quem estudou durante todo o ano, quem passou noites em claro e quem fez a sua parte tinha o direito de exigir que o Estado fizesse a dele. Não fez.
Há aqui uma contradição política evidente. Um Governo que faz da exigência e do mérito uma das suas principais bandeiras não pode falhar precisamente quando lhe compete garantir organização, competência e confiança. A responsabilidade política não se esconde atrás de plataformas informáticas nem se transfere para problemas técnicos. Quem governa responde pelos resultados da sua governação.
Trata-se de um problema nacional, mas as suas consequências sentiram-se de forma muito concreta também no distrito de Setúbal. Cada pauta adiada significou mais dias de incerteza para alunos, professores e famílias, prolongando uma ansiedade que podia e devia ter sido evitada.
É verdade que os calendários foram ajustados para acomodar os atrasos. Mas isso não apaga a falha. O essencial não é o adiamento das datas; é a incapacidade do Estado de assegurar que um dos processos mais importantes do sistema educativo decorresse com a normalidade, a previsibilidade e a confiança que os cidadãos têm o direito de esperar.
Mais do que concluir este processo, o Governo tem agora a responsabilidade de garantir que esta desorganização não compromete as fases seguintes do calendário educativo, desde o concurso nacional de acesso ao ensino superior até ao arranque do próximo ano letivo. Depois do que aconteceu, alunos, professores e famílias precisam de saber que o sistema educativo funcionará com estabilidade, rigor e confiança.
Modernizar os serviços públicos não é apenas digitalizar procedimentos. É garantir que os sistemas funcionam, são seguros e servem as pessoas. A escola pública e o acesso ao ensino superior continuam a ser um dos maiores instrumentos de igualdade de oportunidades do nosso país. Não podem ser geridos com improviso.
Os alunos fizeram o exame. O Ministério da Educação também foi posto à prova. E foi nesse teste à sua capacidade de planear, organizar e garantir o normal funcionamento do sistema que falhou.
Porque a exigência tem de ser recíproca. Se pedimos responsabilidade aos estudantes, quem governa tem de estar à altura das responsabilidades que assumiu. Os exames e o mérito pertencem aos alunos. O bom funcionamento da Educação é responsabilidade do Ministério. E, quando o Ministério falha, os alunos não podem pagar o preço.
