O futuro não esperará pela Ucrânia
Os céus de Kyiv escurecem cada noite na certeza de novos alertas de ataque aéreo. Apesar do enorme esforço tecnológico e produtivo em armas defensivas – em particular para suster drones e alguns dos mísseis balísticos – os cidadãos de Kyiv procuram adormecer sem sobressalto, numa rotina que se impõe depois de 4 anos e meio de Guerra. Resistem para viver a vida; resistem para ter futuro como país, como comunidade autodeterminada, de língua e cultura. Sabem que novos alertas chegarão; mas procuram adormecer para continuar a viver a vida de todos os dias. Parece contraditório? Não é. É a vida de quem sabe que esta Guerra é uma maratona e que não se leva mais leve sem descanso; que o cansaço já se sente.
Mas resistem com energia e determinação. Com a certeza – às vezes incompreensível para quem vem de fora – na vitória que o seu engenho e coragem irão almejar.
A celebração do 35º Aniversário da Independência da Ucrânia foi um momento para viver todas essas dimensões. Para reafirmar a vontade, para recolher abraços e estímulos, para lembrar quem partiu no combate, para agradecer a quem arriscou a vida e para reconhecer quem continua a ajudar. Portugal esteve presente com uma delegação parlamentar do Grupo de Amizade Portugal-Ucrânia, e expressou ali, mais uma vez, a solidariedade do povo português.
Mas há muito trabalho a fazer e essa solidariedade tem de ter uma expressão concreta, com impacto na luta que os ucranianos travam também pelo futuro de uma Europa livre e democrática, onde o Direito Internacional continue a ser um pilar da nossa convivência pacífica. É por isso que lutam; é o que queremos para nós enquanto comunidades europeias.
Um primeiro exemplo encontra-se na defesa dos milhares de menores, jovens e crianças, que foram enviados e estão retidos em território russo ou em zonas ocupadas, sofrendo um processo de russificação que a Convenção de Genebra condena como crime de guerra. A Provedoria de Justiça da Ucrânia continua a fazer um trabalho contínuo para fazer regressar essas crianças e jovens à sua casa. Os números oficiais apontam para perto de 20 mil e apenas aproximadamente 2500 foi possível fazer regressar. É uma dimensão da Guerra que precisa de mais apoio político-diplomático, do envolvimento das agências da ONU, de ONGs e de outras instituições, e onde Portugal deve mostrar e dar mais apoio. As armas, ainda que de defesa, não resolverão – nunca resolvem – todos os problemas.
Por outro lado, o apoio à defesa da Ucrânia, e do seu espaço aéreo, continua a ser uma prioridade central. Se é certo que os sistemas anti-aéreos Patriot são de crucial ajuda, e onde era de esperar mais apoio do Estados Unidos da América, as soluções europeias, com acordos que venham a desenvolver e consolidar uma cadeia de abastecimento para o desenvolvimento e fabrico de Drones é essencial. Portugal deve integrar essa aliança e as autoridades ucranianas sabem que a indústria de defesa portuguesa pode dar um contributo importante. A resposta portuguesa não deve tardar, quando se percebe que esta Guerra – a par daquilo que vai acontecendo no Médio-Oriente – é a primeira que é marcada por uma combinação aérea de veículos de condução remota, drones e mísseis, deixando em terra o essencial da Força Aérea pilotada. Os ucranianos acumulam uma enorme experiência que a necessidade imperiosa de defesa lhes permitiu acumular; Portugal pode contribuir e deve contribuir neste esforço de defesa da Ucrânia, com a certeza que muito irá receber em troca no quadro do desenvolvimento dos seus instrumentos de defesa. Esse deal está por fazer, mas reveste-se de grande importância neste momento.
Por outro lado, a reconstrução da Ucrânia é uma necessidade, que deverá acumular muitos recursos financeiros, de diferentes fontes, que representarão novas oportunidades de trabalho conjunto. A AICEP – e a diplomacia económica portuguesa – deve hoje compreender que trabalhar com a Ucrânia pode trazer um roteiro de oportunidades para as empresas portuguesas. Um roteiro que se está a desenhar hoje e que só se faz com a parceria das autoridades ucranianas. Uma reconstrução mais eficaz precisa de planeamento, programação e execução, e é já hoje, e não no fim desejado da Guerra, que as autoridades ucranianas precisam de parceiros.
Deixo para o fim a adesão da Ucrânia à União Europeia e antes ainda a integração, como observadora, na CPLP. Esta última um espaço comunitário de língua e cultura, mas também de interesses partilhados, que tem presença em todos os continentes, e que muito útil será como plataforma político-diplomática nesta fase de Guerra e construção de uma paz justa e duradoura. A adesão da Ucrânia deve poder acontecer em tempo útil. A sensibilização dos nossos amigos da CPLP é imperiosa e Portugal tem aí – também ao nível parlamentar – um papel importante.
Por outro lado, se é certo que nunca se colocou em dúvida o apoio de Portugal à adesão da Ucrânia, não é menos verdade que em muitas áreas as administrações públicas – também ao nível local – podem contribuir com assistência técnica, num quadro onde a adoção de todo o acervo comunitário é um processo difícil, a que se soma um contexto evidentemente muito adverso, num contexto de guerra.
Há mais a fazer. A Ucrânia bate-se hoje contra o agressor. Esse agressor violou as regras de uma convivência pacífica e justa. A vitória da Ucrânia é necessária para que a Europa, como ator num mundo multipolar, se afirme e afirme os valores da democracia e da liberdade (da autodeterminação). Os dias que vivemos são decisivos. O futuro não esperará pela Ucrânia. E não esperará por nós. Tem de se construir já hoje.
Fonte: Eurico Brilhante Dias. Expresso. 31 de agosto de 2026
