O primeiro passo
O primeiro-ministro Andy Burnham afirmou, numa entrevista ao podcast “The Rest Is Politics”, ter recebido confirmação de que houve interferência russa no referendo do ‘Brexit’. O assunto não é novo. A novidade é um primeiro-ministro britânico reconhecê-lo com esta clareza. Porque um problema que não é afirmado, identificado, descrito é quase sempre um problema que fica por resolver. E o Reino Unido passou uma década a fazer tudo para não o enfrentar.
No Reino Unido, o relatório parlamentar de 2020 do Comité de Inteligência e Segurança considerou credíveis as tentativas russas de influenciar o referendo escocês de 2014. Sobre o ‘Brexit’, afirmou que a interferência russa no Reino Unido foi “seriamente subestimada”. Boris Johnson, que assentava a sua linha política na saída da UE, atrasou a divulgação do documento, só o tornando público depois das eleições que lhe deram a maioria.
Afirmar a interferência não significa justificar o resultado que acabou por resultar no ‘Brexit’. Os eleitores britânicos tinham interesses e descontentamentos próprios. Reduzir a sua escolha a uma operação estrangeira seria uma forma cómoda de fugir à discussão sobre o ‘Brexit’. Mas também não podemos permitir que se acumulem os sinais de interferência e não retirar desses exemplos as conclusões necessárias para proteger as nossas democracias.
Na última década acumularam-se casos de interferência estrangeira, sobretudo russa, em processos eleitorais. Nos Estados Unidos, a interferência nas presidenciais de 2016 é o caso mais documentado, com operações de trolls e pirataria informática confirmadas pelos serviços de informações. Na Roménia, as presidenciais de 2024 foram anuladas devido a uma campanha de influência associada ao TikTok. Seguiram-se as legislativas da Moldávia, em 2025, ou as da Arménia, em 2026, que seguiram um padrão semelhante. Em França — onde em 2027 teremos eleições presidenciais — o Governo atribuiu oficialmente aos serviços de informações militares russos tentativas de desestabilização do processo eleitoral de 2017. A tudo isto acresce uma longa lista de partidos europeus apoiados pelo Kremlin.
Num momento em que a Europa discute orçamentos de defesa de 5% do PIB, e enquanto a discussão pública se centra no equipamento militar, continuamos a proteger mal a frente onde a Rússia combate há mais de uma década: a confiança que permite a uma sociedade democrática funcionar. A guerra da informação é real e joga-se nela a credibilidade das instituições sem a qual nenhuma democracia resiste.
A interferência russa está longe de ser a única forma de manipulação dos atos eleitorais e de criar mecanismos para fomentar a divisão e polarização das nossas sociedades democráticas. Ainda esta semana, a generalidade da imprensa brasileira destacou que, a dez dias da segunda volta, a inteligência artificial do WhatsApp aceitava desenhar cartazes “Flávio 22” e partilhá-los na sua gigantesca plataforma, mas recusava os de “Lula 13”. A Meta fala de uma falha no filtro, como já falara de “problemas técnicos” quando a campanha de Lula viu publicações bloqueadas e páginas desaparecidas da pesquisa.
A União Europeia tem muitos desafios nos próximos anos. Mas há um em que não pode ceder, por mais fortes que sejam as pressões: o de construir um quadro regulatório eficaz que a proteja contra a interferência externa e contra os enviesamentos das plataformas nos processos democráticos. Este caminho terá muitos inimigos e obstáculos. E é também por isso que clareza das declarações de Burnham é importante. Porque reconhecer o problema é sempre o primeiro passo.
Fonte: Mariana Vieira da Silva. Expresso. 16 de outubro 2026
