A escola Martínez da governação
Quando, no final do jogo entre Portugal e Espanha, ouvi o selecionador Roberto Martínez afirmar que “não falhámos, porque hoje perdemos um jogo com uma equipa que é favorita… mostrámos um talento individual incrível, uns valores de equipa que são os valores do povo português, podemos estar muito orgulhosos”, dei conta da enorme semelhança entre aquela declaração e o tipo de entrevistas dos ministros deste Governo. E do potencial que a escola Martínez da desresponsabilização e do autoelogio tem para o balanço desta legislatura.
Este ano fica marcado por uma resposta incapaz às tempestades, pela incapacidade de concretização da iniciativa política do Governo e pelos erros de gestão política de processos normais da Administração. Nas três dimensões foi visível a escola Martínez da comunicação, mas com consequências bem mais graves.
No caso das tempestades, depois da incapacidade de antecipar a gravidade, avisar a população e pré-posicionar os meios, vieram as promessas de pagamentos em três dias úteis e de lay-off a 100%. Meses depois, os prazos foram sucessivamente ultrapassados e as promessas não estão cumpridas. Os apoios foram sendo revistos em baixa e não chegaram, as Câmaras foram responsabilizadas e, sendo os apoios poucos e tardios, foram forçadas a recorrer a fundos próprios ou a contrair empréstimos bancários urgentes, exaurindo as suas tesourarias. A ânsia da promessa fez com que se esquecesse que se trata, na sua maioria, de pequenos concelhos, onde as autarquias não têm os recursos humanos e financeiros e ficaram entregues à sua sorte. Tal como Martínez, também o ministro da Coesão não reconhece que falhou, continua a considerar que o Governo cumpriu e que as Câmaras Municipais é que impediram os apoios de chegar às pessoas.
A principal iniciativa política do Governo neste ano parlamentar foi a contrarreforma laboral. O processo acabou por cair no Parlamento, depois de uma não negociação que durou meses, com avanços e recuos nas medidas, sem um rumo claro e sem cedências. Ou seja, fazendo tudo o que se faz quando não se quer um acordo — atacando e desvalorizando os parceiros negociais, questionando os seus motivos e menorizando a representatividade dos sindicatos. No fim, os culpados são todos menos a ministra da tutela, que também achará que tem razões para estar orgulhosa.
Também o ministro da Educação considera que não falhou e que tem um “talento individual incrível”. Foi isso que o levou a vir dizer ao Parlamento que a maioria das críticas eram falsas, que os problemas tinham nascido das redes sociais e que tudo estava a correr no calendário previsto, para vir dois dias depois adiar o calendário e finalmente apelidar de imprudentes quem confiou nos calendários oficiais e marcou as suas férias. Tudo sem ter ainda sido capaz de explicar o que correu mal, insistindo num incompreensível autoelogio de quem está “a resolver tudo”, ignorando as suas responsabilidades no que aconteceu.
As demonstrações de autoconfiança excessiva assentam no ignorar da gravidade e complexidade dos desafios e, talvez por isso, confundem a leveza do anúncio com a concretização das políticas. Como se as proclamações fossem suficientes para condicionar a realidade. Quando se rejeita a complexidade dos problemas, não se procuram soluções. O risco é ficar-se exposto a sucessivos falhanços, que aqui não se traduzem em empates e eliminações. É que falhar na governação tem outras consequências.
Fonte: Mariana Vieira da Silva. Expresso. 9 de julho de 2026
