Como arruinar uma reforma de 30 anos em 15 dias
Se houve um momento em que se reformou o sistema de avaliação externa dos alunos e de acesso ao ensino superior foi há trinta anos, depois de uma década de avanços e recuos (da PGA ao acesso centrado nas universidades). A afirmação dos exames nacionais a funcionarem como elemento de conclusão do ensino secundário garantiu equilíbrio a nível nacional — através da relativização da inflação de notas (essencialmente feita nos privados) e como elemento de nota específica — resistiu 30 anos, dando ao sistema justiça, rigor e previsibilidade.
Não foi sempre consensual, mas nunca se questionou nem a qualidade das provas, nem o profissionalismo dos serviços que as desenvolveram, nem a dedicação dos professores e dos professores-classificadores, nem o rigor e perícia com que todo o processo foi desenvolvido. Mesmo durante a pandemia, com as devidas adaptações, tudo correu sem percalços. Há muito tempo que era um não tema.
Até chegar Fernando Alexandre, que desde que este processo começou já responsabilizou todos pelos seus erros: os professores, os pais, os serviços, o software, os agrafos, os antigos dirigentes e até quem sabe os atuais. Já tivemos também dirigentes do PSD a insinuarem que estávamos perante sabotagem dos serviços da administração pública.
A verdade é que estamos perante um exemplo claro da desvalorização dos passos necessários para desenvolver uma política pública — que nem é uma reforma. E perante um ministro que entende, nas palavras do próprio, ser o responsável último, quando a sua função implica ser o primeiro.
Ainda não são claros os contornos da avaliação do piloto exame de filosofia. Mas é com espanto que o ouvi usar o argumento que “não recebeu nenhum relatório”. A informação terá sido dada ao secretário de Estado. Mas e se não tivesse sido? Não é ao decisor que cabe garantir que no momento da decisão reuniu todos os elementos? Não é isso que é reformar? Quando o ministro decidiu centralizar a digitalização, foi com base em que informação? Que soluções de contingência foram criadas? Com que dirigentes reuniu na condução desta mudança? Como é que se adaptou o trabalho em curso às mudanças organizacionais profundas no Ministério? Não sabemos.
Na verdade, a informação é pouca e depende apenas do que vai chegando através de pais, alunos e escolas. E isso acontece principalmente porque durante as últimas semanas a principal missão de Fernando Alexandre foi fazer de conta que o problema era pequeno. Primeiro, não era necessário mudar o calendário, depois bastava as notas saírem. Ainda desvalorizou as notas suspensas e os erros que o Júri Nacional de Exames já reconhece em várias disciplinas. Perante notas revistas, orientações do ministério para casos de exames que continham itens de outros alunos, perante milhares de alunos que ainda não conseguiram consultar os seus exames e seis vezes menos alunos que já se candidataram ao ensino superior — tudo é desvalorizado. Perante tudo isto, o ministro repete que não correu muito mal e que são problemas residuais e empolados.
Só quem não compreende o problema pode dormir descansado quando está a impedir milhares de alunos de se candidatarem em condições normais e justas ao ensino superior, relegando-os para uma fase já com poucas vagas. Depois de tamanha incompetência, já só restava a Fernando Alexandre festejar ter resolvido os problemas que ele próprio criou. E nem isso consegue.
Fonte: Mariana Vieira da Silva. Expresso. 23 de julho de 2026
