Culpá-los e fazer alarde
Responsabilizando sempre primeiro os serviços que tutelam, como se isso não fosse em si mesmo uma autocrítica, segue-se o inevitável argumento da imigração
No final dos anos 90, a conhecida série animada americana “South Park” lançou uma música satírica, Blame Canada , que se transformou num símbolo da cultura urbana sobre a prática reiterada de escolher um bode expiatório de modo a nunca se assumir responsabilidades. No final, a letra toca no ponto que explica por que razão Fernando Alexandre e Ana Paula Martins me têm recordado muito estes acordes. Acaba assim: “Vamos culpá-los e fazer alarde, antes que alguém se lembre de nos culpar.”
Assim tem sido a resposta aos problemas por parte dos ministérios da Educação e da Saúde. Responsabilizando sempre primeiro os serviços que tutelam, como se isso não fosse em si mesmo uma autocrítica, segue-se o inevitável argumento da imigração. É indiscutível que o número de imigrantes cresceu em Portugal e que isso, naturalmente, cria mais pressão sobre os serviços públicos. Tal como, em sentido oposto, é igualmente indiscutível que são os imigrantes que asseguram muito do suporte aos serviços públicos e serviços de cuidados no nosso país. Mas não é difícil concluir que não é isso que está em causa nos sucessivos falhanços destes ministros.
Na Saúde, o número de nascimentos em que a mãe é estrangeira subiu em Portugal nos últimos anos, mas no total temos menos 35 mil nascimentos por ano do que tínhamos no ano 2000 e mais 600 médicos especialistas em ginecologia/obstetrícia (300 na última década). Há, por isso, um problema de gestão e organização dos serviços, que também explica que haja este ano menos cirurgias do que no ano passado, e que aumentem as listas de espera nas consultas e nas cirurgias. A ministra da Saúde não cumpriu aquilo com que se comprometeu e tem várias medidas de política que nem sequer consegue concluir, como na resposta ao excesso de dependência dos prestadores de serviços, nos incentivos nos centros de elevado desempenho na área de obstetrícia e ginecologia, ou no novo sistema de acesso a cirurgias – tudo medidas pomposamente lançadas que estão suspensas depois de trapalhadas ininterruptas.
Na Educação, olhando para a última década (com dados consolidados pelo Ministério da Educação até ao ano letivo de 2024/2025), o número de alunos até ao 12º ano diminuiu 7%. No total do ensino básico e secundário, há menos 95 mil alunos e mais 8 mil professores. A falta de professores não resulta do recente aumento ligeiro do número de alunos, que aliás ocorre num contexto de queda demográfica acentuada. E o que explica o fenómeno inédito de alunos sem escola é o facto do Ministério, depois de uma reforma que implodiu as suas estruturas, ter deixado de fazer o trabalho de organização de rede que todos os anos fazia antes do início do ano letivo. Porque todos os anos há famílias que mudam de casa, famílias que emigram, famílias que imigram e famílias que mudam do sistema privado para o público, e vice-versa. Tal como aconteceu nos exames, as rotinas e o trabalho de organização foram abandonados, querendo depois o ministro aparecer como o salvador que, em reuniões de última hora para os telejornais, tenta resolver os problemas que ele próprio criou.
À medida que o tempo passa e as trapalhadas se acumulam vai ficando cada vez mais evidente que acabarão por se esgotar os bodes expiatórios. Nesse momento, restará aos ministros um de dois caminhos: assumir as suas responsabilidades, ou culpar Montenegro por os ter escolhido.
Fonte: Mariana Vieira da Silva, Expresso, 17 de setembro de 2026
