Os custos da falta de palavra
Se pensarmos bem, na política como na vida, a arte está no difícil equilíbrio não só entre interesses conflituantes, como entre os anjos e demónios que habitam dentro de nós – a verdade e a moderação, a coragem e a prudência, a inteligência e a humildade.
O mundo e o país vivem num impasse, de dimensões algo distintas. Enquanto se aguarda por um desfecho que desbloqueie o estreito de Ormuz, a economia portuguesa aguarda reais medidas de auxílio do Governo. Enquanto o mundo se preocupa com o impacto da IA no mercado de trabalho, Portugal arrasta há 9 meses um processo negocial sobre um pacote laboral faccioso e injusto. Enquanto os tempos clamam por clareza e estabilidade, a AD decidiu voltar atrás com a sua palavra na eleição para o Provedor de Justiça.
Se pensarmos bem, na política como na vida, a arte está no difícil equilíbrio não só entre interesses conflituantes, como entre os anjos e demónios que habitam dentro de nós – a verdade e a moderação, a coragem e a prudência, a inteligência e a humildade. Há, porém, uma virtude absoluta em política – a palavra. Devemos ser parcimoniosos a dá-la, mas quando a damos, temos de cumprir. É uma condição indispensável da confiança. E, se algumas vezes não há outra alternativa à surpresa, devemos evitar a todo o custo o engano.
Esta teoria é muito bonita, mas está nos antípodas da perceção que as pessoas têm dos políticos, tantas vezes associados a promessas que não cumprem e a circunstâncias que não lhes permitem, alegam, cumprir com a sua palavra. Desde a crise económica à conjuntura política, há sempre um “mas” ao dobrar da esquina. Esta é a falta de clareza que alheia os portugueses da política e confunde as escolhas ideologicamente distintas que há entre uns e outros. Miranda Sarmento já veio avisar que uma redução do IRS e um bónus aos pensionistas são “mais difíceis de executar” em 2026.
Estas “nortadas” naturalmente exigem ajustamentos de percurso, embora se possa discutir qual o ajustamento e qual o destino. Coisa diferente é quando não há nada que o instigue. É aparentemente o caso do pacote laboral, onde uns dias de progressos negociais parecem voltar à estaca zero quando o Governo se lembra de repor alguma das suas propostas originais. Foi assim com os 25 dias de férias, a contratação a prazo e a reintegração de trabalhadores. Se o objetivo for chegar a um acordo com a UGT, esta tática do “yo-yo” não permite consolidar as aproximações e gera desconfiança entre as partes.
No Parlamento, essa confiança também já viu melhores dias. A somar à falta de resposta às cartas e à clara preferência do PSD em negociar dossiers como a Lei da Imigração com o CHEGA, esta passada semana tiveram lugar as famigeradas eleições para os órgãos externos, adiadas há meses à conta da indefinição negocial do PSD. Depois de tudo, chegou-se a um consenso a divisão pelos vários partidos dos diversos conselhos, com exceção do Conselho de Estado, onde houve listas separadas, e o Tribunal Constitucional, que ficou para outras núpcias.
Eis quando se percebe que o PSD massivamente votou contra o nome de Tiago Antunes para Provedor de Justiça. Não têm a coragem de sequer o admitir, nem muito menos a decência de explicar publicamente porque o fizeram. É evidente que a razão não está nas alegações espúrias de Rui Rocha de que Tiago Antunes escreveu argumentários quando foi adjunto de um governo PS. O objetivo de Hugo Soares foi fragilizar o PS. Infeliz, não se apercebeu que saiu ele pior na fotografia – incapaz de honrar um acordo tão delicadamente conseguido. Afinal, não é a primeira vez que o PSD rói a corda a um acordo destes. É, talvez, a primeira que o faz quando está no Governo – e, ainda para mais, um governo minoritário.
Quem já fez sumir o valor da sua palavra foi o Presidente dos Estados Unidos da América. Donald Trump tinha prometido um fim às aventuras militares americanas no estrangeiro, mas o isolacionismo teve vida curta. A desastrosa campanha no Irão não se limita a contar com inúmeros crimes de guerra e a fragilização das alianças americanas no Golfo. Há já danos em unidades de produção não só de petróleo como também de produtos derivados. Apesar das sucessivas tentativas de cessar-fogo dos últimos dias, este acaba sempre por sair gorado, especialmente à luz de Israel não respeitar que deve parar a sua invasão do Líbano. Entretanto, o Estreito continua fechado.
O autor do “Arte da Negociação”, tal como os seus companheiros no governo português, devem achar que fazem melhores acordos a partir de uma posição de força. E fariam, se tivessem nela. A Trump corre-lhe mal a guerra, tal como já haviam corrido as tarifas há uns meses. A Montenegro, como se começa a ver nas sondagens, a perceção é de um Governo incapaz, mesquinho e sem visão reformista para o país. Quanto mais se afastam do PSD moderado de outrora, mais se afastam não só do PS como do eleitor do centro. E se o objetivo for levar tudo em aberto para uma negociação parlamentar com o CHEGA, nomeadamente no pacote laboral, porque acha o Governo que assim fica em melhores condições? O Governo é tão frágil quanto a sua palavra e essa parece estar perdida. Resta saber se de vez.
Fonte: Miguel Costa Matos. Sábado. 21 de abril de 2026
